
Débora Martins ao lado da sua mesa artística de queijos Foto: Arnaud Sperat Czar/Profissão Queijeira
Em uma noite de celebração à cultura e ao queijo brasileiro, Débora Martins, 39 anos, conquistou o título mais cobiçado da categoria. A vencedora do concurso “Melhor Queijista do Brasil 2026” combina uma trajetória que une a precisão da fisioterapia à paixão pelos queijos artesanais e agora se prepara para levar o conhecimento brasileiro ao cenário internacional.
Filha de produtores rurais no sul de Minas Gerais, Débora cresceu imersa no mundo dos laticínios. Seu avô, aposentado da Nestlé, deu o pontapé inicial ao voltar para a roça em Cruzília (MG), no distrito de Paiolzinho, comprando um sítio e algumas vacas. O que começou com a venda de 100 litros de leite por dia, passou pelo iogurte e, enfim, chegou ao queijo, sob o comando de seu pai.

A vencedora em frente à sua loja, Cave 381, na Vila Mascote, em São Paulo Foto: Débora Pereira/Paladar
“Tenho muito orgulho de dizer que minha vida é ligada ao queijo desde pequena”, conta Débora. No entanto, seu caminho não foi linear. Aos 17 anos, saiu de casa em busca de novos horizontes. Formou-se em Fisioterapia em Taubaté (SP), mudou-se para São Paulo para fazer mestrado e doutorado e construiu uma carreira de 14 anos no Hospital das Clínicas, atuando na linha de frente contra o Covid-19.

Débora cortando queijos para sua obra final Foto: Brunella Rios/SerTãoBras
Foi justamente no auge do caos sanitário que a virada aconteceu. “No final da pandemia, senti que precisava mudar. Sempre quis voltar às minhas origens, mas minha família já estava em São Paulo, meus filhos nasceram aqui. Precisava encontrar um jeito de unir as duas vidas.”
A loja, o café e a virada
O resultado dessa reflexão foi a abertura, em julho de 2021, de uma loja especializada em queijos artesanais no bairro da Vila Mariana, em São Paulo. A escolha do local foi estratégica: uma região em ascensão, muitos prédios e público de poder aquisitivo, mas carente de um comércio especializado.
“Minha ideia inicial era vender só os queijos da minha família, da Paiolzinho. Mas logo percebi que queria fazer uma curadoria maior, apresentar queijos de pequenos produtores de todo o Brasil. E meu marido, que é apaixonado por café, sugeriu unirmos as duas paixões”, explica.

Com o troféu e o queijo azul da família Foto: Débora Pereira/Paladar
Assim nasceu um espaço que vale uma experiência. O cliente não apenas compra o queijo, mas recebe uma consultoria sobre harmonização, participa de degustações guiadas e pode levar pra casa tábuas prontas para o aperitivo. O público, majoritariamente famílias de 35 a 50 anos, responde com fidelidade: 95% dos clientes voltam. Com um ticket médio de R$ 150, a loja já fatura 35% de suas vendas online, com destaque para as tábuas de queijo no iFood, que no Dia dos Namorados chegaram a representar 40% do faturamento mensal.
A preparação para o título
Quando o edital do concurso “Melhor Queijista do Brasil 2026” foi lançado, Débora já vinha se preparando há um ano. Em maio de 2024, ela pediu demissão do hospital para se dedicar 100% à loja e ao estudo.

Todos os candidatos do concurso Foto: Brunella Rios/SerTãoBras
“Eu sabia que minha maior dificuldade seria a prova teórica, principalmente a tecnologia de produção de queijos. Por mais que minha família produza, eu não estava no dia a dia da fábrica. Então, estudei como nunca. Li livros, me dediquei muito”

Finalizando os detalhes Foto: Brunella Rios/SerTãoBras
A prova prática, que ela imaginava ser a mais tranquila, a montagem de uma tábua para delivery, foi o maior susto. “Vinte minutos para montar com queijos que eu não conhecia, sem meu plástico-filme habitual… fiquei desestabilizada. Vi a concorrente ao lado fazendo algo lindo e pensei: ‘perdi’.”
Mas o que a salvou foi a autenticidade. Na prova de apresentação do queijo preferido, Débora escolheu o Azul da Mantequeira, da sua família, uma peça histórica que foi o primeiro queijo da Paiolzinho a ganhar medalhas internacionais.

Preparação queijeira com abacaxi e queijo azul Foto: Débora Martins/Acervo Pessoal
Para harmonizar, inovou: uma cheesecake com o queijo azul na massa, finalizada com lascas do próprio queijo e um chutney de abacaxi, servido com kombucha da mesma fruta.

Defesa oral do queijo preferido Foto: Brunella Rios/SerTãoBras
“Eu não queria geleia de frutas vermelhas nem goiabada. Queria quebrar paradigmas. E deu certo”, comemora.
A obra final e a vitória por décimos
O tema da competição era “A música embala o queijo: sinfonia de cores, texturas e sabores”. Débora criou uma obra que sintonizou diferentes alturas e graduações dos queijos: dos mais brancos e suaves aos mais intensos e maturados, utilizando flores comestíveis e cortes que lembravam notas musicais.

Os queijos da obra final foram iguais para todos, uma caixa surpresa de 25 queijos Foto: Brunella Rios/SerTãoBras
A vitória foi apertada, decidida por décimos. “Vi os jurados repetindo a minha harmonização. O Laurent Dubois, por exemplo, comeu o dele e acabou comendo o que a parceira deixou. Ali senti que eles gostaram.”

Jurados trabalhando Foto: Brunella Rios/SerTãoBras
Débora venceu entre nove candidatos, um número recorde no concurso que, para ela, é um sinal de amadurecimento da profissão. “A classe está crescendo. Prêmios assim são essenciais para mostrar que a gente existe e para valorizar o trabalho de formiguinha do dia a dia.”
Levar o Brasil para a França
Com o título de Melhor Queijista do Brasil 2026, Débora não planeja parar. O concurso mundial da categoria a espera em setembro de 2027, na França, para o qual ela está classificada sem ter que passar pela seleção. “Sei que vai ser um desafio conhecer e me habituar com os queijos estrangeiros, por exemplo, preciso aprender as regras de todos os queijos europeus de denominação de origem protegida, não vejo a hora de provar cada um”, disse ela.
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