Medo e insegurança dominam eleições no Peru

Epifania Almeyda tinha 15 anos quando deixou sua cidade natal, Ayacucho, nos Andes, para escapar do conflito armado que devastava o Peru. Três décadas depois, morando em um bairro no nordeste de Lima, ela ainda vive assombrada por criminosos que extorquem e matam abertamente.

Almeyda compartilha o mesmo receio que quase 70% dos peruanos, segundo pesquisas, esperando que o combate à violência seja a prioridade do vencedor do segundo turno das eleições presidenciais entre a direita representada por Keiko Fujimori e a esquerda liderada por Roberto Sánchez.

“Vivemos com medo, até mesmo para abrir a porta… nossos filhos correm risco até quando vão para a escola”, relata Almeyda, enquanto prepara refeições em um refeitório comunitário que vende alimentos por menos de um dólar às pessoas mais pobres.

No bairro de San Juan de Lurigancho, conhecido por suas ruas estreitas e escadarias de concreto, os moradores se sentem abandonados pela polícia, que raramente aparece na região, explicou Almeyda.

Keiko Fujimori, em sua quarta tentativa à presidência, promete adotar uma política rigorosa contra o crime, e San Juan de Lurigancho foi o local onde obteve maior votação no primeiro turno das eleições em abril. Já seu adversário Roberto Sánchez propõe reformas constitucionais que permitam a participação dos militares no auxílio à polícia.

Na região de Lima, a taxa de homicídios aumentou para 23 por 100 mil habitantes em 2025, triplicando em cinco anos, conforme dados oficiais.

Do terrorismo ao crime organizado

Keiko comparou recentes gangues criminosas com insurgentes derrotados pelo governo autocrático de seu pai, prometendo combater essas ameaças sociais com igual intensidade.

O motorista Jacob Cóndor, todos os dias ao iniciar seu turno, reza suplicando proteção, pois enfrenta medo constante de não retornar para casa. Seu ônibus ostenta uma pequena imagem religiosa no para-brisa, ao lado de um brinquedo dado por sua filha.

As extorsões aumentaram 20% de um ano para outro, afetando fortemente o setor de transportes, onde ao menos 75 motoristas foram assassinados, principalmente na capital, Lima.

“Sair para trabalhar virou motivo de medo. Um passageiro pode atirar nas suas costas a qualquer momento”, revela o motorista, que planeja votar em Fujimori devido à sua proposta firme contra a insegurança.

Seis soldados garantem a proteção na empresa de transportes onde Cóndor trabalha, enquanto policiais fazem patrulha dentro dos ônibus, que exibem adesivos com o slogan “Motoristas com Keiko”.

O empresário Julio César Raurau, do ramo de transportes, relata que ao menos sete gangues enviam ameaças por mensagens, via papel ou WhatsApp.

Ele acredita que, assim como seu pai eliminou o terrorismo, Keiko poderá acabar com essas organizações criminosas, visto que o país enfrenta uma guerra interna.

Criminosos aproveitam o cenário instável

No entanto, Epifania Almeyda não está completamente convencida. Ela teme que a situação continue igual independente de quem assuma o poder.

Oliver Cotera, outro morador, culpa a classe política pela insegurança, profundamente impactado pela morte recente de três mototaxistas em um único final de semana.

Ele deseja uma transformação profunda e pretende votar em Roberto Sánchez, uma vez que acredita que Keiko, apesar de sua influência no Congresso, não fez nada em benefício do povo.

Mesmo votando diferente, Raurau concorda que o aumento da violência está ligado à instabilidade política, que levou o Peru a ter oito presidentes em dez anos devido a processos de impeachment e renúncias promovidas pelo Parlamento.

Essa fragilidade política permitiu que grupos criminosos ganhassem força. Gangues como o Tren de Aragua, originárias da Venezuela, se espalharam pelo país, enquanto a instabilidade reduziu a capacidade do Estado para responder a essas ameaças internas e externas.

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