Marcelino Ramos ou Barracão? Há décadas, berço do Rio Uruguai gera debate no norte gaúcho

Leito abrange uma extensão superior a 1,7 mil quilômetros e costeia 37 cidades.

Principal curso d’água do Rio Grande do Sul, o berço do Rio Uruguai alimenta debates entre moradores há décadas na Região Norte. Desde a construção da ponte férrea que liga Piratuba (SC) e Marcelino Ramos (RS), em 1913, a comunidade discute a origem do rio.

O leito abrange uma extensão superior a 1,7 mil quilômetros e costeia 37 cidades do norte, noroeste e oeste do Estado. No centro da discussão estão os municípios de Marcelino Ramos e Barracão, separados por 78 quilômetros.

Em Marcelino, o Rio Uruguai inicia depois da confluência entre os rios Pelotas e do Peixe. Por lá, os moradores aprendem na escola que o berço do rio é na cidade, com a ponte rodoferroviária como divisora.

— A construção da ponte férrea entre os rios Pelotas e do Peixe aconteceu ali porque é onde começa o Rio Uruguai. Essa ponte ia ser feita em Barracão, mas foi construída em Marcelino, por causa da formação do Rio Uruguai — argumenta a moradora Lourdes Zago Isoton.

Já para a comunidade de Barracão, o começo do Rio Uruguai é na junção dos rios Pelotas e Canoas. Para o membro do Fórum Permanente de Conservação e Uso Racional do Rio Uruguai, Elvio Jacobi, o marco zero do rio está no território do município.

— A regra oficial para a formação dos rios considera a junção de outros dois de grandezas semelhantes. É o que ocorre na junção dos rios Canoas e Pelotas. A grandeza desses rios pode ser percebida antes e após a formação do lago da barragem. Também em materiais e mapas oficiais, a informação é de que a nascente do Uruguai é em Barracão — afirma.

Divergência histórica

Emerson Carniel / Agência RBS
Ponte é um dos pontos que alimenta a discussão.

Órgãos federais utilizam como referência o sistema de mapeamento do Exército Brasileiro e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse caso, o trecho do rio entre Barracão e Marcelino Ramos também pode aparecer com duas denominações diferentes.

— Na cartografia, a gente leva em consideração os aspectos culturais da região, ou seja, o rio nesse trecho entre Barracão e Marcelino Ramos tem aspectos que dizem que ali é Rio Pelotas ou Rio Uruguai. No mapeamento, a gente pode colocar das duas formas, isso já está presente em alguns mapas — pontua a doutora em Geografia, Karen de Oliveira.

No contexto histórico, a discordância surge com o projeto de construção da ferrovia, a partir da planta geral da estrada de ferro que liga São Paulo e Rio Grande. Pelos mapas da Brazil Railway — empresa que organizou a ferrovia na região — a divisão iniciaria em Marcelino Ramos.

— A partir de 1938, o IBGE começa a se estruturar e passa a fazer os primeiros mapas topográficos das regiões. Esses mapas são divergentes dos da empresa que organizou a ferrovia aqui na nossa região. Pelos mapas da Brazil Railway, essa divisão ou confluência iniciaria em Marcelino Ramos — afirma o doutor em História, Henrique Trizoto.

Solução?

A solução definitiva para o debate é de competência do Governo Federal, através da Comissão Nacional de Geoinformação. O órgão é responsável pelas questões toponímias — estudo da origem e evolução dos nomes de lugares geográficos.

A reportagem contatou a comissão, mas não obteve retorno até o momento. Independente da origem, o Rio Uruguai carrega o título de um dos mananciais mais importantes da hidrografia do sul do Brasil, com contribuição essencial para a navegação, agricultura, turismo, biodiversidade e geração de energia.

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