Mais que um ajuste histórico: EUA acabam de tomar uma decisão que abre portas para fazerem em Cuba “o que fizeram na Venezuela”

Washington estará a tentar enfraquecer o verdadeiro centro do poder cubano para “deslegitimar” Raúl Castro e pressionar uma mudança interna no regime através das elites militares e políticas da ilha

“Os Estados Unidos estão a tentar fazer em Cuba o que fizeram na Venezuela”. É desta forma que Diana Soller, especialista em Relações Internacionais e Ciência Política, interpreta a acusação criminal da administração norte-americana contra Raúl Castro, um processo que, considera, está longe de ser apenas um ajuste de contas histórico. 

Para a especialista, o verdadeiro objetivo é o de enfraquecer o centro do poder cubano e abrir caminho a uma transformação do regime em Havana, tal como aconteceu em Caracas, com Nicolás Maduro, levado para os Estados Unidos sob a justificação de uma acusação criminal, no caso relacionada com narcotráfico.

“Tudo indica, pela forma como os Estados Unidos têm tratado o hemisfério ocidental, que este possa ser um passo para deslegitimar Raúl Castro”, afirma à CNN Portugal. “E, deslegitimando Raúl Castro, deslegitima-se o verdadeiro centro de poder em Cuba”, acrescenta, mesmo que o presidente já seja Miguel Díaz-Canel.

O antigo líder cubano foi esta quarta-feira formalmente acusado pelo alegado envolvimento no abate, em 1996, de dois aviões civis da organização Brothers to the Rescue, grupo de exilados cubano-americanos sediado em Miami. O ataque matou três cidadãos norte-americanos e um residente nos EUA e desencadeou uma das maiores crises diplomáticas entre Washington e Havana desde o fim da Guerra Fria. 

Na altura, o episódio levou os Estados Unidos a endurecer drasticamente o embargo contra Cuba através da Lei Helms-Burton, assinada pelo então presidente Bill Clinton e ainda hoje em vigor. Mas, quase 30 anos depois, Diana Soller acredita que o caso ganhou um novo significado político. 

“Esta acusação concorre precisamente para criar condições para uma reorganização do poder em Cuba mais próxima dos interesses norte-americanos. Ou seja, para o prender numa prisão americana e de alguma maneira investir o poder em alguém que esteja já a negociar com os Estados Unidos uma forma de criar uma nova Cuba. Uma que tenha viabilidade política e que volte a ter acesso aos materiais e aos alimentos necessários para a vida na ilha, mesmo que não restitua a democracia, como na Venezuela”.

Apesar de Miguel Díaz-Canel ocupar formalmente a presidência do país da América Latina, a especialista considera que Raúl Castro continua a ser a principal figura de autoridade dentro do regime: “Como acontece muitas vezes nestes regimes, o verdadeiro líder não é o presidente. É alguém que continua a mexer na máquina patrimonial.”

Raúl Castro, irmão de Fidel, foi presidente de Cuba durante dez anos, entre 2008 e 2018. (Getty Images)

Segundo Diana Soller, é precisamente essa estrutura de poder que Washington está a tentar atingir. “Os regimes ditatoriais, especialmente estes regimes bolivarianos, vivem de uma elite civil, mas principalmente militar, que está comprada pelo regime”, explica. “E começam a fraquejar quando deixam de conseguir pagar essas rendas, os subornos”.

O agravamento das sanções e do bloqueio económico poderá estar assim a aumentar pressão interna sobre as elites que sustentam o castrismo. “Cuba está muito fragilizada. E este bloqueio provavelmente já levou setores próximos do regime a questionar e a reivindicar a capacidade do sistema continuar a garantir estabilidade e privilégios”, afirma.

O caso que serve de base à acusação remonta a 24 de fevereiro de 1996, quando caças cubanos abateram dois aviões da Brothers to the Rescue perto da costa da ilha. Havana alegou que os aparelhos tinham violado o espaço aéreo cubano e acusou o grupo de participar em operações hostis contra o regime de Fidel Castro. Os Estados Unidos sempre defenderam que os aviões estavam desarmados e em espaço aéreo internacional.

Para Diana Soller, o essencial está agora no impacto político que a acusação pode provocar dentro de Cuba.

“Os Estados Unidos estão a ir diretamente à fonte do poder do regime. Raúl Castro continua a ser um símbolo político. Estamos a falar de uma dinastia, de uma continuação do regime castrista por outros meios.”

E acredita que uma eventual mudança poderá acontecer sem necessidade de intervenção militar direta.

“Não é preciso um rapto nem uma operação militar”, afirma. “Basta que as elites o derrubem, que deixem de ouvir Castro e passem a procurar alguém com quem consigam dialogar no hemisfério norte e os poderes dele passam para os Estados Unidos.”

No fundo, conclui, “este tipo de acusação tem como verdadeiro objetivo decapitar o regime cubano.”

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