Depois de um mês de abril marcado por crescentes manifestações populares e trabalhistas, o governo interino do Haiti anunciou na segunda-feira (4) um aumento no salário mínimo dos operários terceirizados. Ainda que abaixo da reivindicação dos grevistas, o ajuste vem recompensar a mobilização sindical que começou seis meses atrás e cresceu feito bola de neve nas últimas semanas, devido ao disparo do preço da gasolina.
Em declaração oficial, o Ministério da Economia e Finanças garantiu que esse reajuste salarial deve também se estender a outros setores, “um por um”, porém sem agenda predefinida.
Para Reyneld Sanon, coordenador da Antèn Ouvrye (“Antena Operária”), organização da sociedade civil de defesa de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, esta magra concessão é uma vitória da classe trabalhadora que não traduz nenhuma simpatia do governo em relação à causa operária — mas sim o medo de uma revolta generalizada.
“Desde o início das manifestações, precisavam impedir que isso se tornasse algo maior, que o movimento operário fosse desembocar numa rebelião nacional. Por isso, deram esse pequeno aumento para frear a mobilização operária. Mas esse governo, a maioria dos governos, não tem nenhuma preocupação em atender às reivindicações dos trabalhadores”, diz.
Na prática, as respostas vêm a conta-gotas, como no setor da Saúde, em que os trabalhadores em greve pedem o pagamento de salários atrasados. Em Cabo Haitiano, segunda maior cidade do país, os funcionários do Hospital Justinien anunciaram esta semana a volta às atividades, após negociações satisfatórias com a direção. Em Porto Príncipe, os grevistas do Hospital La Paix não tiveram o mesmo êxito e continuam mobilizados.
Demandas múltiplas
Por um lado, a estratégia do governo não parece ser outra além de ganhar tempo. Por outro, os trabalhadores estão sufocando. “Os salários são realmente miseráveis”, denuncia Sanon. “Eles não correspondem ao custo de vida no país. Um salário mínimo não resolve nada, não permite comer todo dia, levar as crianças para a escola e atender necessidades básicas…E isso sem falar das péssimas condições de trabalho nas usinas.”
Professor, sindicalista e coordenador do Coletivo dos Professores para a Renovação da Educação no Haiti (Ceneh), Ferdinand Jean-Mary relata uma situação parecida na educação pública, em que, segundo ele, “as condições de vida e trabalho estão muito complicadas”. Com uma inflação oscilando entre 25% e 30%, comprar o básico se torna cada vez mais difícil. “Por isso, pedimos não apenas um aumento, mas um reajuste salarial de acordo com o custo de vida”, diz.
Jean-Mary lembra também que o caminho para sair da crise multifacetada que enfrenta o Haiti — e o próprio setor da Educação — não se limita a uma questão de renda.
Existem diversos desafios estruturais que precisam urgentemente ser enfrentados. As escolas públicas, por exemplo, ainda precisam lidar com a falta de merenda ou de bancos e mesas nas salas de aula — demandas que, segundo ele, o Estado teria condições de suprir. De um ponto de vista mais amplo, a insegurança e a impossibilidade de circular nas principais estradas do país afetam diretamente as condições de vida de todos os haitianos.
“A insegurança tem consequências muito graves em todas as atividades da vida. A partir do momento em que não se tem comunicação rodoviária, tudo é mais complicado. Hoje, temos os principais eixos rodoviários bloqueados [por gangues armadas], e a falta de vontade do governo para resolver essa questão é um crime contra todos os trabalhadores do setor público ou privado”, diz Jean-Mary, destacando que transitar de uma região para outra, no contexto atual, representa não apenas um custo altíssimo, mas também um risco de vida.
Desafios complexos e contraditórios
Frente a uma estratégia de poder que consiste em dividir e tratar cada demanda como se fosse específica, o desafio dos movimentos e organizações é não arrefecer a mobilização, assim como construir uma união da classe trabalhadora em busca de uma saída à crise política e social que o país atravessa. É neste sentido que foi criada, em 2025, a Central Unitária dos Trabalhadores dos Setores Públicos e Privados do Haiti (Cutraseph), guarda-chuva nacional de sindicatos de diferentes setores, do qual Ferdinand Jean-Mary também é secretário-adjunto.
Uma das pautas centrais nos debates em todas as esferas da vida social e política é a necessidade de resgatar um estado democrático e soberano. Para Jean-Mary, isso só pode acontecer com a realização de eleições regulares e credíveis, tendo como principal prerrogativa a garantia de segurança e livre circulação, de norte a sul da ilha. “Só quando todos os principais eixos estiverem liberados, poderemos ter eleições e, por fim, um governo legítimo capaz de debater os problemas do país.”
Apesar dos esforços da Polícia Nacional Haitiana, de décadas de intervenções de forças internacionais sob auspícios das Nações Unidas, e até da contratação de mercenários estrangeiros pelo governo atual, há de constar que a situação da segurança não melhorou em nada ao longo dos últimos anos. Por trás de uma ineficiência quase misteriosa, muitos são aqueles que desconfiam da boa vontade das autoridades em resolver o problema.
“Esse governo não tem interesse em desbloquear as estradas e nem em reestabelecer a democracia. Porque o que ele quer é ficar no poder”, afirma Ferdinand Jean-Mary.
Reyneld Sanon, por sua vez, considera que a única solução seria uma saída revolucionária. No entanto, as condições estão longe de serem reunidas, na conjuntura atual, para que isso aconteça. “É necessário e urgente que haja indignação, revolta e mobilização contra a situação que estamos vivendo. Mas existem obstáculos também. A própria insegurança é um freio. As gangues foram inseridas nos bairros populares justamente para impedir grandes movimentos e reivindicações. E, infelizmente, isso funcionou.”
Em outras palavras, as mesmas condições que infernizam a vida das classes populares são especialmente vantajosas para a manutenção de um governo não eleito e cada vez mais suspeito, e que não parece ter nenhuma pressa em organizar uma transição de poder legítima e democrática.
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