Guiné-Bissau: Partidos divididos e sedes encerradas desde o golpe de Estado

Vários dirigentes de partidos na Guiné-Bissau confirmaram e lamentaram à Lusa que as suas sedes se encontram encerradas por ordens dos militares que assumiram o poder no país há seis meses, a 26 de novembro de 2025.

A divisão nos principais partidos da Guiné-Bissau chegou ao histórico PAIGC na luta pela liderança depois do golpe de Estado que proibiu atividades e encerrou sedes partidárias.

Vários dirigentes de partidos na Guiné-Bissau confirmaram e lamentaram à Lusa que as suas sedes se encontram encerradas por ordens dos militares que assumiram o poder no país há seis meses, a 26 de novembro de 2025.

Um dirigente do histórico Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) disse à Lusa que a ordem de impedimento de atividades político-partidária foi emitida pelo Alto Comando Militar em janeiro, mas já antes a sede do partido estava encerrada.

Segundo a fonte, logo em novembro, poucos dias após o golpe, homens fortemente armados obrigaram a evacuar a sede e nunca mais militantes e dirigentes conseguiram lá entrar.

O mesmo dirigente observou que o encerramento forçado da sede por militares obriga o partido a “deslocar o grosso das atividades” comemorativas do 70.º aniversário da sua fundação, que se assinala a 19 de setembro, para países como Portugal e Senegal, e “eventualmente a ter de realizá-las via online”.

O responsável, membro do Comité Central do PAIGC, admitiu igualmente que o XI congresso ordinário, que deverá ocorrer antes do final do ano, também poderá ser realizado “via online” se a ordem de impedimento de acesso à sede do partido, a escassos metros do palácio da presidência guineense, não for levantada.

“Esperemos que o bom senso prevaleça e que os nossos camaradas que atualmente estão no Governo dos militares consigam fazê-los levantar essa medida injusta”, acrescentou.

A direção do partido exortou um grupo de militantes e dirigentes que, à revelia, integram o Governo de transição, a exigir que a sede seja reaberta para que as atividades políticas possam ser retomadas.

Os militantes e dirigentes que integram o Governo de Transição constituíram o chamado Grupo de Reflexão para a Salvação e Renovação do PAIGC e anunciaram que iriam realizar em maio o congresso previsto para novembro para escolher nova direção.

O grupo tem contestado a liderança do presidente do PAIGC, Domingos Simões Pereira, argumentando que deixou de ter condições para a função por se encontrar em prisão domiciliária depois de ter sido detido há seis meses no golpe militar.

Simões Pereira e o PAIGC foram afastados, por decisão judicial, das eleições gerais que antecederam o golpe, e apoiaram o candidato Fernando Dias, que reclamou vitória sobre o então Presidente Umaro Sissoco Embaló, candidato a um segundo mandato.

O grupo de oposição interna acabou por suspender o anunciado congresso e a Comissão Permanente do PAIGC anunciou a celebração de um entendimento para a realização da reunião magna que terá de ser aprovado pelo Comité Central.

A direção do PAIGC defende que o primeiro passo é os militantes e dirigentes no Governo conseguirem convencer as autoridades militares a reverter as proibições de atividades partidárias e do uso das sedes.

No dia 10 de janeiro passado, o Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública emitiu um comunicado no qual proibiu a realização de conferências de imprensas e declarações públicas não autorizadas.

No mesmo dia, elementos da Polícia de Ordem Pública e militares mandaram encerrar as sedes partidárias em Bissau e no interior do país, disse à Lusa uma fonte do Partido da Renovação Social (PRS), que lamenta a situação.

A ala da direção de Fernando Dias no PRS descreve a situação como se a Guiné-Bissau não estivesse a viver em democracia, apesar de ser um Estado de Direito.

A fonte do gabinete de Comunicação e Imagem do PRS precisou que as duas sedes do partido, ambas no bairro de Kundock, nos arredores de Bissau, são vigiadas por polícias que não deixam ninguém entrar nos dois edifícios.

O PRS encontra-se dividido em duas alas, sendo que uma apoiou o ex-presidente guineense Umaro Sissoco Embalo, que disputou as presidenciais de 23 de novembro com Fernando Dias da Costa.

A sede desta ala do PRS, que funciona no bairro da Santa Luzia, também se encontra encerrada conforme afirmou à Lusa um dirigente, mas que não quis entrar em detalhes.

“A sede está fechada”, disse apenas a fonte da ala do PRS liderada por Félix Nandunguê.

Um elemento do secretariado do Movimento para a Alternância Democrática (Madem G-15), da ala do ex-primeiro-ministro Braima Camará, admitiu que a sede do partido, que funciona atrás do palácio presidencial, também se encontra encerrada desde o golpe.

 “Os militares proibiram e nós respeitamos. Estamos em situação de golpe”, sintetizou a mesma fonte.

O ex-chefe de Estado, Umaro Sissoco Embaló, deposto no golpe militar, é um dos fundadores do Madem G-15, partido que também enfrenta divisões internas com duas alas, a de Braima Camará e a de Satu Camara.

*** A delegação da agência Lusa na Guiné-Bissau está suspensa desde agosto após a expulsão pelo Governo dos representantes dos órgãos de comunicação social portugueses. A cobertura está a ser assegurada à distância ***


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