“Grenadye, alaso”: mais de 50 anos depois, os “guerreiros” do Haiti estão de volta ao Campeonato do Mundo

Na única participação do Haiti em Mundiais, em 1974, os haitianos caíram na primeira fase, num grupo que incluía a Itália, a Argentina e a Polónia. Agora, volta ao torneio comandada pelo francês Sébastien Migne, que conseguiu a qualificação para o Mundial sem sequer pisar solo haitiano

A 18 de agosto de 2004, o estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe, no Haiti, encheu-se para ver Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Milmar e os outros craques da seleção brasileira de futebol, cinco vezes campeã do mundo. O Brasil venceu a equipa da casa sem dificuldades, por 6-0, mas isso não estragou a festa, que se espalhou pelas ruas da cidade. 

O “Jogo pela Paz”, como ficou conhecido, foi organizado pelas Nações Unidas e pelo governo brasileiro para promover a reconciliação nacional e trazer um breve alívio ao país assolado pela violência. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, sentou-se na bancada ao lado dos representantes do governo haitiano e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, enviou uma mensagem em vídeo agradecendo aos jogadores e aos militares brasileiros (que garantiram a segurança do evento) “por terem dedicado o seu tempo e talento tão generosamente e por terem ajudado o Haiti neste momento difícil da sua história”. “Joguem pela paz”, declarou Annan em crioulo haitiano.

Adeptos de futebol de Porto Príncipe vibram enquanto a estrela brasileira Ronaldo e os seus colegas de equipa desfilam em veículos blindados da ONU antes de um jogo amigável pela paz contra a seleção haitiana (Foto: Vanderlei Almeida /AFP via Getty Images)

Mais de 20 anos depois, a seleção do Haiti vai reencontrar a seleção do Brasil, mas agora já não será um encontro amigável. As duas equipas integram o Grupo C do Campeonato do Mundo e vão defrontar-se a 20 de junho, em Filadélfia. No entanto, há coisas que não mudaram: o Brasil continua a ser favorito e o Haiti continua a ser um país marcado pela violência.

A presença da seleção haitiana nos EUA é, em si mesma, um facto assinalável. O Haiti participou uma única vez num Campeonato do Mundo, em 1974. Mais de 50 anos depois, está de volta à competição principal, apesar das muitas dificuldades. O selecionador, o francês Sébastien Migne, de 52 anos, conseguiu a qualificação para o Mundial sem sequer pisar solo haitiano. “É impossível [ir lá] porque é demasiado perigoso”, disse Migne, que antes foi treinador-adjunto da equipa de Camarões. “Normalmente vivo nos países onde trabalho, mas aqui não posso. Já não há voos internacionais para lá. Eles [responsáveis da federação de futebol haitiana] dão-me informação e eu treino a equipa remotamente”, explicou o treinador à revista France Football.

A situação política e a violência no país obrigam a seleção a jogar os seus jogos em casa noutros locais, por exemplo em Curaçau, a 800 quilómetros de distância, uma ilha junto à costa da Venezuela.

Os jogadores competem quase todos em equipas estrangeiras, maioritariamente em França e nos EUA. Dois deles, Leverton Pierre e Yassin Fortuné jogam no Vizela, em Portugal.

Um país em constante convulsão

O Haiti foi o primeiro país latino-americano a declarar independência. Inspirados pela Revolução Francesa, em 1791 os escravos iniciaram uma revolução contra os colonizadores franceses que culminou com a declaração de independência do Haiti, em 1804. Em 1915, os fuzileiros navais dos Estados Unidos desembarcaram em Porto Príncipe para defender os interesses das empresas norte-americanas no país, tomado pela instabilidade política. Os EUA assumiram o controlo da alfândega e das principais instituições económicas do Haiti, como os bancos e o tesouro nacional. A ocupação americana durou até 1943.

A segunda metade do século XX foi marcada pela presidência de cariz ditatorial de François Duvalier (1957-1971) e, depois, por Jean-Bertrand Aristide (1991-2004), que enfrentou várias revoltas e acabaria por sucumbir a um golpe de estado e exilar-se. No país caribenho com mais de 12 milhões de habitantes não há eleições presidenciais desde o assassínio do presidente Jovenel Moïse em 2021. 

Desde então sucederam-se administrações interinas, abrindo espaço para a proliferação de gangues armados, aliados sob a coligação “Viv Ansanm”, que controlam quase toda a capital, Porto Príncipe, e as suas zonas periféricas. O Haiti tem a maior taxa de homicídios do mundo, segundo alguns analistas. “Mais de 8.100 assassinatos foram documentados em todo o país entre janeiro e novembro de 2025. Os relatórios indicaram também um aumento do tráfico de crianças, que continuam a ser utilizadas por gangues em múltiplas funções, incluindo em ataques violentos”, denunciou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Port-au-Prince, Haiti, 2022 (EPA/Sabin Johnson)

Os viajantes são alertados para não visitarem o país devido ao risco de raptos, crimes, atividades terroristas e agitação civil. A violência dos gangues também levou ao deslocamento de cerca de 1,5 milhões de pessoas, muitas das quais já viviam em situação de elevada pobreza.

Em dezembro, o Conselho para a Transição Presidencial aprovou um calendário eleitoral, prevendo a primeira volta das eleições para agosto de 2026, a segunda volta para dezembro de 2027 e a divulgação dos resultados eleitorais definitivos até 20 de janeiro de 2027, condicionada a uma melhoria da situação de segurança.

À instabilidade política juntam-se as catástrofes naturais: um furacão em 1994, tempestades tropicais em 2004 e 2008, um sismo devastador em 2010, outro sismo em 2021, mais tempestades e inundações. O sismo de 2010 causou enorme destruição, matando perto de 300 mil pessoas e deixando mais de um milhão sem casa, e foi seguido por uma epidemia de cólera. Morreram pelo menos 30 pessoas ligadas ao futebol haitiano, incluindo jogadores, treinadores, árbitros e representantes administrativos e médicos.

Nos últimos anos, as necessidades humanitárias atingiram níveis sem precedentes. A cólera continua a ser uma grande preocupação de saúde pública. Estima-se que a insegurança alimentar afete 5,7 milhões de pessoas, com quase dois milhões em níveis de emergência. O cancelamento da maior parte do financiamento da ajuda dos Estados Unidos enfraqueceu ainda mais a resposta humanitária.

Adeptos celebram em Port-au-Prince, a 18 de novembro de 2025, o apuramento para o Mundial  (Fotografia de Clarens SIFFROY/AFP via Getty Images)

O Mundial de 1974 e a proeza de Sanon

Em 1974 a equipa nacional qualificou-se ao vencer o Campeonato da Concacaf no ano anterior, que decorreu em casa, em Porto Príncipe, e serviu pela primeira vez de torneio de qualificação para o Mundial da FIFA. Os anfitriões conseguiram quatro vitórias em cinco jogos, com uma única derrota frente ao México. Terminaram em primeiro lugar na classificação geral e garantiram o seu lugar na Alemanha Ocidental (RFA).

Na única participação do Haiti em Mundiais, os haitianos caíram na primeira fase, num grupo extremamente difícil que incluía a Itália, vice-campeã da edição anterior, a Argentina, que contava com estrelas como Mario Kempes, e a Polónia, liderada por Grzegorz Lato, que viria a conquistar o terceiro lugar do pódio. 

A equipa comandada por Antoine Tassy saiu derrotada nos três confrontos: uma derrota por 3-1 com Itália, uma goleada de 7-0 aplicada pela Polónia e uma derrota por 4-1 com a Argentina. 

Mas para falar do Haiti nesse Mundial tem de se evocar a figura de Emmanuel Sanon, que foi até agora o único haitiano a marcar em competições internacionais – e marcou logo dois golos.

O jogador do Haiti Emmanuel Sanon com o guarda-redes italiano após o jogo no Mundial de 1974 (DR

O momento mais memorável foi quando Sanon abriu o marcador contra a Itália, cuja defesa não tinha sido batida nos 19 confrontos anteriores. Ao acabar com a invencibilidade do lendário guarda-redes italiano Dino Zoff, Sanon tornou-se um ícone nacional. “Todos se perguntavam quem conseguiria superar Dino Zoff”, comentou o goleador após o torneio. “Os jornais falavam de jogadores europeus e sul-americanos, mas ninguém acreditava que um haitiano conseguisse.”

Com a confiança reforçada, no último jogo da fase de grupos, Sanon disparou um remate fulminante que passou pelo guarda-redes argentino Daniel Carnevali – o Haiti perdeu o jogo, mas saiu de cabeça levantada. 

2026: outra vez em campo

Depois de 1974, o Haiti manteve-se afastado dos campeonatos do mundo. A chegada do treinador Sébastien Migné em março de 2024 marcou um ponto de viragem na seleção. Na classificação, depois de uma sólida segunda fase, os haitianos terminaram em segundo lugar no Grupo C, atrás de Curaçau. O verdadeiro desafio chegou na fase final da Concacaf. Inseridos num grupo com potências regionais como Costa Rica, Honduras e Nicarágua, os haitianos, sofreram apenas uma derrota, por 3-0 com as Honduras, fora de casa, e conseguiram ganhar frente à Costa Rica. 

O momento determinante aconteceu com a vitória por 2-0 sobre a Nicarágua, resultado que, aliado a um empate estratégico entre a Costa Rica e as Honduras, garantiu a liderança do grupo para o Haiti. 

“Grenadye, alaso”, gritam os jogadores em uníssono antes de cada partida. A expressão vem do comando francês “Grenadiers, à l’assaut”, usado para dar ordem de ataque às tropas. Os escravos haitianos que serviram o exército francês trouxeram a frase para as lutas de independência: “Guerreiros, avancem”. Os guerreiros, neste caso, são os jogadores de futebol que vestem as cores da seleção. O plantel é composto por atletas que competem, quase todos, no estrangeiro. Mais de metade dos jogadores nasceram no Haiti, os restantes são filhos de pais haitianos.

Uma faixa com a fotografia da seleção haitiana de futebol, pendurada numa parede em Pétion-ville, Porto Príncipe (Fotografia de Clarens SIFFROY/AFP via Getty Images)

No Mundial estão integrados no Grupo C e vão defrontar a Escócia, na madrugada deste domingo, no estádio de Boston, o sempre favorito Brasil, a 20 de junho, em Filadélfia, e, por fim, Marrocos, a 24 de junho, em Atlanta.

Infelizmente, os jogadores apenas poderão contar com o apoio da comunidade haitiana que já reside nos Estados Unidos, pois em junho do ano passado o presidente Donald Trump incluiu o Haiti na lista de países cujos cidadãos estão impedidos de entrar nos EUA por razões de segurança.

O governo do Haiti atribuiu 528 milhões de gourdes (cerca de 3,5 milhões de euros), à Federação Haitiana de Futebol (FHF) para suportar os custos da seleção de futebol: metade desse valor será entregue aos jogadores como prémio pela qualificação para o Campeonato do Mundo, o restante servirá financiar os treinos e os preparativos logísticos para a competição mundial.

“O país não está apenas a dar um cheque à sua equipa”, disse a presidente da FHF, Monique André, na ocasião. “É uma mensagem de confiança, de companheirismo — uma mensagem de esperança e, acima de tudo, um símbolo de uma nação que conhece os seus filhos e ainda acredita em si própria.”

O primeiro-ministro haitiano, Alix Didier Fils-Aime (2º a contar da direita), a presidente da Federação Haitiana de Futebol (FHF), Marie Monique Andre (à direita), o ministro dos Desportos, Pythagore Dumas (à esquerda), e o jogador Woodensky Pierre, em Porto Príncipe, a 8 de abril de 2026 (Fotografia de Clarens SIFFROY/AFP via Getty Images)

O médio Woodensky Pierre, o único jogador que integra o atual plantel que compete no Haiti, compareceu na cerimónia e entregou os equipamentos oficiais da seleção ao primeiro-ministro Fils-Aimé e ao ministro Dumas. Pierre estreou-se pela seleção nacional apenas a 31 de março, no empate a uma bola frente à Islândia. “É nossa responsabilidade, enquanto líderes, manter a esperança viva e dar o exemplo para o futuro do país”, disse Fils-Aimé. “Por isso, estamos a apoiar aquele que continua a ser um dos maiores orgulhos do Haiti: o futebol haitiano.”

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