Com a COP31 marcada para novembro, em Antália, na Turquia, representantes do governo, lideranças indígenas e especialistas em finanças sustentáveis avaliam que o principal desafio da agenda climática deixou de ser a negociação de metas e passou a ser a mobilização de recursos para viabilizar a proteção e a restauração das florestas.
O tema ganhou força durante o III Fórum de Finanças Climáticas e de Natureza, realizado no Rio Nature & Climate Week, num momento em que o Brasil busca transformar em ações concretas os compromissos firmados na COP30, realizada em Belém no ano passado.
A discussão ocorre em meio à crescente percepção de que a preservação dos ecossistemas deixou de ser apenas uma agenda ambiental.
Segundo estudo do Fórum Econômico Mundial (WEF) apresentados durante o encontro, mais de 50% do PIB global depende de serviços ecossistêmicos fornecidos pela natureza, enquanto o desmatamento segue entre os principais vetores das mudanças climáticas.
Presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago afirmou que já existe consenso internacional sobre a necessidade de interromper e reverter a perda de florestas até 2030. O desafio, segundo ele, é transformar os compromissos em execução.
“O mapa do caminho não é um instrumento de negociação. A decisão já foi tomada. O que precisamos, agora, é acelerar a implementação.”
A avaliação é compartilhada por organizações envolvidas na construção do roteiro internacional para combate ao desmatamento. Para Joana Setzer, da Climate Policy Initiative, os instrumentos financeiros existem, mas ainda operam de forma fragmentada e sem escala suficiente para atender às metas climáticas.
O financiamento apareceu como o principal desafio do debate. Segundo os participantes, a agenda florestal ainda enfrenta dificuldades para atrair recursos compatíveis com sua relevância econômica e climática.
Renata Piazon, CEO do Instituto Iara, afirmou que o tema ainda é tratado de forma excessivamente técnica, o que dificulta sua conexão com investidores e financiadores. “A agenda climática precisa ser entendida como uma agenda de desenvolvimento econômico, segurança alimentar, saúde e energia”, disse.
Dados da ClimateWorks Foundation mostram que as doações filantrópicas globais destinadas à agenda climática alcançaram cerca de US$ 10 bilhões em 2023. Desse total, aproximadamente US$ 100 milhões foram destinados ao Brasil, apesar de o país concentrar a maior floresta tropical do mundo e ocupar posição estratégica para o cumprimento das metas climáticas globais.
Ex-ministra dos Povos Indígenas, a deputada federal Sonia Guajajara defendeu que os mecanismos de financiamento incorporem a proteção territorial e o fortalecimento das comunidades indígenas. Segundo ela, a COP30 consolidou o reconhecimento dos territórios indígenas como instrumentos relevantes para a mitigação das mudanças climáticas:
“Se continuar sendo mais rentável desmatar do que proteger e restaurar as florestas, nós não teremos solução para o planeta”, afirmou.
Sonia também alertou para os riscos de uma transição energética baseada na expansão da mineração sem salvaguardas socioambientais adequadas. Segundo ela, a crescente demanda por minerais considerados estratégicos para a economia de baixo carbono não pode reproduzir conflitos históricos enfrentados por povos indígenas e comunidades tradicionais.
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