EUA “não têm motivos” para ver Portugal como pouco fiável – Observador

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, garantiu, esta quarta-feira, que Portugal não “apoia, não subscreve nem está envolvido” na guerra do Irão. “Nós não estamos neste conflito”, assegurou o governante, que recusou também a ideia de que o país seja um aliado — no quadro da NATO — pouco fiável.

Na entrevista ao programa Grande Entrevista da RTP3, Paulo Rangel admitiu que o conflito é “difícil” no que toca aos “valores internacionais”. Para explicar o ponto de vista, o ministro descreveu o Irão como uma “ameaça” e recordou que o regime iraniano retaliou, nas primeiras horas do conflito, contra vários países no Médio Oriente — como a Arábia Saudita ou o Qatar.

Paulo Rangel sublinhou que o Executivo sempre “defendeu soluções diplomáticas”, principalmente nesta “fase volátil” do cessar-fogo entre o Irão e os Estados Unidos. “Interessa-nos essencialmente atingir um cessar-fogo duradouro que crie as condições de paz para que as duas partes possam aceitar inaugurar um novo capítulo” no Médio Oriente.

Questionado sobre se Portugal manterá um apoio “incondicional” aos Estados Unidos, Paulo Rangel desmentiu essa tese: “A utilização da palavra incondicional é desajustada”. O ministro assinalou também não ter conhecimento se os EUA caracterizam Portugal como um aliado “bom ou mau”, após a notícia de que a Casa Branca teria feito uma lista para dividir os Estados-membros da NATO.

Trump terá feito lista de aliados “bons” e “maus” da NATO para distinguir quem ajudou EUA na guerra contra o Irão

Em relação às acusações que a administração Trump tem feito à NATO desde que a guerra no Irão começou, Paulo Rangel classificou-as como “injustas”, lembrando que os Estados Unidos não informaram de antemão os aliados da operação militar em território iraniano: “Não tiveram oportunidade de criar uma posição prévia sobre esta matéria”. Em qualquer caso, o ministro assinalou que lhe parecia “demasiado” estar a “pedir uma posição totalmente alinhada com todos” os países que integram a aliança transatlântica.

O líder da diplomacia portuguesa considera que seria “altamente indesejável” se os Estados Unidos decidissem sair da NATO. Portugal “fará tudo” para que os vínculos transatlânticos não se percam, destacou o ministro, que concedeu que seria “extremamente difícil” para o país se Washington abandonar a aliança transatlântica.

Na mesma entrevista, Paulo Rangel descreveu o uso da Base das Lajes como “ínfima” por parte dos Estados Unidos, garantindo que o “material” que passa na infraestrutura militar na ilha Terceira é apenas para efeitos de “defesa”. Nesse sentido, o governante recordou que o “pedido de autorização veio depois de terem começado os ataques”.

Os Estados Unidos têm assegurado a Portugal, frisou Paulo Rangel, que o tipo de equipamentos que transitam na Base das Lajes apenas servem como resposta a ataques proporcionais, necessários e não contra alvos civis. “Temos a garantia que nos é dada pelos EUA” de que essas condições que “têm sido cumpridas”, salientou o ministro. O chefe da diplomacia portuguesa referiu também que existe um consenso entre os principais partidos portugueses — PS e o Chega — sobre o uso da infraestrutura.

Interrogado sobre as acusações de falta de autonomia estratégica, o ministro recusou “completamente”. “Portugal tem uma posição que é exclusivamente atlântica. Portugal tem de ter isso em consideração. Qual é a inserção geopolítica qual é a sua história e da sua identidade”, explicou Paulo Rangel, que enfatizou que o Governo tem tentado manter a “transparência” no que diz respeito a este assunto.

Nessa lógica, o governante condenou as palavras de Donald Trump sobre a “destruição da civilização” iraniana. Na mesma linha crítica a Washington em alguns temas, Paulo Rangel destacou que Portugal foi “muito claro” na defesa da liberdade comercial quando a administração Trump aplicou tarifas, assinalando que a diplomacia portuguesa defendeu o controlo da Dinamarca da Gronelândia quando os EUA ameaçaram anexar a maior ilha do mundo.

Sobre os contactos e a relação com o Presidente da República, Paulo Rangel falou em “contactos auspiciosos” com António José Seguro. “A política externa essencial é consensual. Não é matéria de divergência”, justificou o ministro, realçando também que ainda “não houve espaço para fazer um balanço”. E também “não vem mal nenhum ao mundo” se houver alguma divergência entre o Palácio das Necessidades e Belém.


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