As dez instalações industriais e companhias de aviação mais poluentes de Portugal emitiram, em conjunto, cerca de 8,9 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) em 2025 — um aumento de 7% face ao ano anterior. A Refinaria de Sines da Petrogal, a TAP e a central a gás da EDP em Lares encabeçam o ranking dos maiores emissores.
Os dados, apurados no âmbito do Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE) e divulgados pela associação ambientalista Zero em comunicado embargado até 29 de Maio, revelam que o crescimento foi impulsionado sobretudo pelo recurso intensivo às centrais termoeléctricas a gás natural fóssil, após um apagão em Abril que obrigou ao accionamento de produção despachável para estabilizar o sistema eléctrico nacional.
No total, as dez maiores fontes emissoras foram responsáveis por 8.935.856 toneladas de CO2, contra as 8.376.848 toneladas registadas em 2024. No mercado europeu de carbono, o preço médio das licenças de emissão rondou os 74 euros por tonelada em 2025, adquiridas em leilão pelas centrais fósseis, embora outros sectores industriais beneficiem ainda de uma parcela atribuída gratuitamente.
Refinaria de Sines lidera, centrais a gás disparam
A Refinaria de Sines da Petrogal, pertencente ao Grupo Galp, encabeça o ranking pelo sexto ano seguido, apesar de as suas emissões terem diminuído 16% — de 2,63 para 2,20 milhões de toneladas de CO2. A Zero esclarece que esta redução se ficou a dever, em larga medida, a uma paragem técnica programada de 50 dias para manutenção, pelo que não reflecte uma mudança estrutural no perfil da empresa.
A associação critica o facto de a Galp concentrar apenas cerca de 16% dos seus investimentos em energias renováveis, e exorta a empresa a acelerar a aposta na produção de hidrogénio verde e de combustíveis sintéticos destinados à aviação e ao transporte marítimo — sectores de difícil descarbonização em que estas alternativas têm maior potencial.
O fenómeno mais marcante de 2025 foi o aumento drástico das emissões nas centrais de ciclo combinado a gás natural. A central da EDP em Lares, que em 2024 ocupava o oitavo lugar do ranking, saltou para a terceira posição, com um aumento de 215%, superando um milhão de toneladas de CO2. A central do Ribatejo entrou directamente para o sétimo lugar, com um crescimento de 326%, empurrando a Tapada do Outeiro para fora da lista. A central do Pego manteve o sexto lugar, com um acréscimo de 43%.
A Zero nota que este aumento não reflecte uma quebra generalizada das energias renováveis, mas resulta da conjugação de vários factores: um consumo recorde de electricidade, menores importações líquidas, uma redução da produção eólica e, sobretudo, a necessidade de estabilizar o sistema eléctrico após o grande apagão de Abril — que obrigou ao accionamento de centrais fósseis em regime de urgência.
“A lição estrutural não deve ser a de que precisamos de mais gás, mas sim a de que precisamos de um sistema eléctrico renovável mais resiliente, flexível e inteligente”, sublinha Francisco Ferreira, dirigente da Zero e investigador do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade (Cense) da Universidade Nova de Lisboa, em resposta ao Azul. “O gás pode ter tido um papel de segurança no curto prazo, mas não pode transformar-se na solução estrutural para fragilidades técnicas que têm de ser resolvidas.”
TAP mantém 2.º lugar, cimenteiras recuam
A TAP manteve a segunda posição, com um ligeiro aumento de 1% nas emissões, totalizando perto de 1,18 milhões de toneladas de CO2. A contabilização no âmbito do CELE abrange apenas os voos intra-europeus e para a Suíça. A título de contexto, as emissões totais da TAP em 2025 atingiram cerca de 3,77 milhões de toneladas de CO2 equivalente — mais de três vezes o valor contabilizado no CELE.
Para a Zero, os combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) são “necessários, mas insuficientes e numa segunda linha em relação ao verdadeiramente prioritário, que é reduzir os voos, principalmente em distância até alguns milhares de quilómetros onde o comboio rápido deverá ser uma alternativa”. “A eficiência operacional e a renovação da frota ajudam, mas são frequentemente anuladas pelo crescimento da procura”, acrescenta Francisco Ferreira.
Em sentido contrário ao das centrais a gás, o sector cimenteiro apresentou reduções relevantes. O Centro de Produção de Alhandra da Cimpor registou uma quebra de 25% — de cerca de 1,11 milhões para 838 mil toneladas —, descendo para a quinta posição. A Secil, com a Fábrica do Outão, reduziu as emissões em 22%, caindo para a oitava posição. Já a unidade de Souselas da Cimpor manteve o quarto lugar, com uma quebra residual de 1%, e a Cimentos Maceira e Pataias recuou para a nona posição, com uma redução de 4%.
“Não há, infelizmente, dados disponíveis que permitam concluir que a queda das emissões em algumas fábricas resulte, por si só, de uma descarbonização estrutural da produção de cimento”, explica Francisco Ferreira, da Zero. “As reduções de emissões são muito diferenciadas entre fábricas e podem resultar de paragens programadas prolongadas ou de uma redução que poderá reflectir investimentos de descarbonização.”
A Zero reconhece estes progressos, mas adverte que o sector cimenteiro continuará a figurar entre os três grandes responsáveis pelo topo da tabela de emissões em Portugal, a par da refinação e das centrais a gás natural.
Apelo à transição justa e a uma política europeia mais ambiciosa
Os dados confirmam que refinação, gás fóssil e cimento continuam a dominar o perfil de emissões industriais em Portugal — e que a urgência da descarbonização está longe de ser apenas uma questão de calendário. Perante este quadro, a Zero defende uma transição energética justa e programada que proteja os trabalhadores e os fornecedores das indústrias mais expostas. “A Transição Justa não pode ser apenas uma expressão genérica associada ao encerramento ou declínio de actividades fósseis, tem de ser uma política territorial abrangente, integrada, concreta, antecipada e financiada”, sublinha Francisco Ferreira.
O envolvimento antecipado ou preventivo das empresas com as autarquias, sindicatos e a administração é fundamental, reforça o especialista. “Deveriam existir planos territoriais obrigatórios de transição para grandes instalações fósseis e industriais intensivas em carbono, antes de encerramentos ou reduções abruptas de actividade, fundos de reconversão regional”, explica o dirigente da Zero.
Estes planos poderão ser “alimentados por receitas das próprias empresas de forma antecipada, do CELE e por fundos europeus, para formação remunerada, apoio à contratação e criação de emprego local”. O objectivo, conclui, deve ser “evitar desemprego em massa, mas também evitar o prolongamento artificial de actividades incompatíveis com metas climáticas”.
A associação apela igualmente a que o futuro “CELE 2” — que passará a abranger o transporte rodoviário e os edifícios — seja desenhado de forma mais robusta e ambiciosa, garantindo benefícios reais tanto para o clima como para os cidadãos.
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