A República Dominicana é parte de uma ilha no mar do Caribe, ocupa 64%. A outra parte é o Haiti, com 36% do território. Os dois países dividem a Isla Espaniola, ou Santo Domingo, como nominaram os invasores espanhóis em 1492 (primeira terra avistada). Essa divisão tem origem ainda no domínio colonial. Foi em 1697, através do Tratado de Ryswick que a Espanha cedeu a parte que hoje é o Haiti para a França, que usou mão de obra escravizada para manter o plantio da cana de açúcar. A outra parte seguiu sob domínio espanhol. Quando os negros haitianos realizaram sua revolução em 1804, libertando-se da França, nasceu ali, na parte leste, também desejos de libertação. Assim, 40 anos depois, a República Dominicana também ficou independente, mas renegou o Haiti, mantendo a divisão.
Esse imbróglio histórico desatou uma rivalidade que ainda hoje se expressa no país. Como o Haiti não conseguiu se desenvolver, é comum o trânsito de haitianos para o outro lado da ilha. Coisa que não é muito bem aceita. Tanto que em 1937 o então presidente Trujillo realizou um massacre na fronteira, matando mais de 20 mil haitianos, para garantir que não cruzassem a fronteira.
Atualmente a República Dominicana tem 11 milhões de habitantes. Deste número, cerca de 500 mil são haitianos que desde há dois séculos buscaram neste país uma chance de vida nova. No começo o governo dominicano incentivou a migração, pois precisava de mão de obra para o plantio da cana. Com o passar do tempo, a economia do país foi mudando e nos últimos anos o que tem sustentado a economia é o turismo. Isso tem feito com que a migração seja vista como um problema. Até porque com a desestabilização do Haiti desde 2004, a fronteira com o país acaba sendo a mais acessível para os haitianos que são obrigados a abandonar o país. O fluxo é grande.
Mas, desde 2024 a política de imigração endureceu. E neste ano mesmo começou um processo de deportação dos haitianos que viviam na República Dominicana. Milhares deles já foram deportados sob a alegação de que o país não tem como sustentar o fluxo intenso de migração. Até muro foi construído na fronteira, para melhor controle.
Nesse cenário, os migrantes haitianos que vivem no país desde há décadas, têm sofrido forte pressão. Os mais velhos não conseguem aposentadoria, mesmo tendo vivido toda a vida ali e trabalhado por anos. E os mais novos, filhos e descendentes de haitianos, nascidos na República Dominicana, não são reconhecidos como cidadãos do país. Alguns deles chegam a ser deportados e outros são impedidos de estudar ou trabalhar, porque não têm documentação.
Uma das coordenadoras do Movimento Reconoci.do, que luta pelo reconhecimento e restituição da cidadania dominicana dos nascidos no país, Elena Lorac, conversou com a jornalista Elaine Tavares sobre essa situação de “apátridas” que vivem os descendentes de haitianos.
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