Os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã atingiram e afetaram, diretamente, a Embaixada do Brasil em Teerã. As informações constam em comunicações do posto diplomático obtidos pelo Metrópoles por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Antes do início da guerra, os telegramas transmitidos pelo embaixador brasileiro no Irã, André Veras Guimarães, giravam em torno de atualizações sobre negociações nucleares indiretas entre Irã e EUA, realizadas na Suíça.
Em 27 de fevereiro, o diplomata brasileiro transmitiu a outros postos diplomáticos brasileiros no Oriente Médio um telegrama sobre o resultado da terceira rodada de conversas entre Washington e Teerã. Nele, André Veras Magalhães citou declarações do chanceler iraniano, Abbas Araghchi, que classificou as conversas como “muito mais sérias”, e com maior “consenso” sobre um possível acordo do que em contatos anteriores.
Mas, um dia depois, o tom de otimismo deu lugar aos primeiros bombardeios contra a capital do Irã, Teerã.
“Por volta de 9h45 de hoje, 28/2/2026, ouviram-se diversas explosões em diferentes pontos da capital, Teerã. Informe iniciais disponíveis dão conta de que cerca de 33 alvos teriam sido atacados, entre os quais, instalações ligadas ao Ministério da Inteligência iraniano e ao Escritório do Líder Supremo. No momento, não há ainda notícias de baixas”, disse o embaixador André Veras Guimarães em um Telegrama transmitido em 28 de fevereiro, quando começou a guerra.
Em outro telegrama, enviado a embaixadas no Oriente Médio, o diplomata brasileiro confirmou que, além da capital, outras cidades iranianas, como Bandar Abbas, Kermanshah, Qom e Isfahan, também foram atacadas. Guimarães ainda acrescentou que o Irã, conforme havia prometido, iniciou ataques retaliatórios contra alvos militares dos EUA espalhados pela região, principalmente em países do Golfo Pérsico.
Guerra no Irã
- A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã começou em 28 de fevereiro, após a capital do país persa, Teerã, ser alvo de bombardeios.
- Na época, Washington e Tel Aviv usaram o programa nuclear iraniano como justificativa para a ofensiva. O conflito começou dias após negociações entre EUA e Irã.
- Ex-líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei foi morto no primeiro dia de guerra. Ele foi substituído pelo próprio filho, aiatolá Mojtaba Khamenei.
- Em resposta aos ataques, o Irã lançou bombardeios contra bases norte-americanas espalhadas por países do Oriente Médio.
- Além disso, autoridades iranianas bloquearam a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, por onde cerca de 20% do petróleo mundial é escoado.
- Depois de consequências negativas para a economia mundial, e da resistência do Irã, o presidente Donald Trump chegou a falar em matar “toda uma civilização” caso Ormuz não fosse reaberto. O líder norte-americano, porém, recuou e anunciou um cessar-fogo de duas semanas em 7 de abril.
- Nesta semana, Trump estendeu a trégua por tempo indeterminado, e tem pressionado o Irã a negociar.
Consequência burocrática
A primeira consequência direta da guerra na embaixada foi de ordem burocrática. Com a confirmação da morte do aiatolá Ali Khamenei, autoridades iranianas decretaram feriado nacional de sete dias, onde instituições públicas como escolas e bancos deveriam permanecer fechadas durante o período de luto.
Por isso, em 1º de março, um dia após o início do conflito, o embaixador brasileiro pediu autorização para adiantar os salários de funcionários iranianos, que teriam de ser pagos até o quinto dia útil daquele mês. Data que coincidiria com o período do feriado.
“Nessas condições muito agradeceria a Vossa Excelência o obséquio de considerar a possibilidade de, excepcionalmente, autorizar o pagamento imediato dos salários dos contratados locais referentes ao mês de fevereiro de 2026 em dólares norte-americanos, sem a realização de operação de câmbio”, disse um trecho do telegrama.
Já em 17 de março, o embaixador brasileiro comentou sobre os recentes ataques dos EUA e Israel contra a capital iraniana. Segundo André Veras Magalhães, os bombardeios visaram principalmente bancos e delegacias de polícia na região norte de Teerã, onde também residiam a maioria dos embaixadores estrangeiros no Irã.
Nas operações realizadas no dia anterior, 16 de março, a Embaixada do Brasil foi afetada diretamente, mas sem grandes danos.

Mesmo com os intensos ataques, um trecho do documento expõe um clima de normalidade entre a população iraniana, que na época se preparava para as comemorações do Ano Novo do Irã.
De acordo com o embaixador brasileiro, a população continuava frequentando mercados da capital, incluindo o mais importante deles, o Grande Bazar de Teerã, e realizando compras para feriado, tradicionalmente comemorado em março.
Atualização e possível plano de fuga
Antes do conflito no Oriente Médio completar 1 mês, um informe foi enviado da Embaixada do Brasil em Teerã para a Secretaria de Estado das Relações Exteriores (SERE). No telegrama transmitido em 21 de março, o embaixador André Veras Magalhães atualizou o governo brasileiro sobre a situação de cidadãos brasileiros no país persa.
Naquela altura, a representação diplomática calculou que 65 brasileiros ainda estavam no Irã, sendo a maioria deles mulheres casadas com iranianos. O restante do grupo era dividido entre diplomatas e expatriados, principalmente jogadores e treinadores de futebol. Outros 15 cidadãos do Brasil já haviam recebido informações da embaixada, e deixaram o país pela fronteira com a Turquia.
Devido ao baixo número de brasileiros no território iraniano, e uma relativa estabilidade, a Embaixada do Brasil no Irã disse não ter planos de uma possível missão para retirar cidadãos do país. Mesmo assim, a representação brasileira traçou uma estratégia, caso fosse necessário evacuar brasileiros, que não chegou a ser colocada em prática. Eles seriam colocados em um ônibus ou van fretada, e sairiam pela Turquia ou Armênia.

Procurado pelo Metrópoles, o Itamaraty informou que, apesar da guerra ter impactado diretamente a embaixada brasileira no Irã, o posto segue funcionando normalmente.
“A Embaixada do Brasil em Teerã tem funcionado normalmente, e não foi fechada em nenhum momento, apesar das dificuldades e desafios inerentes à situação de conflito. O corpo diplomático brasileiro permaneceu em Teerã durante o curso do conflito cumprindo suas funções”, disse o Ministério das Relações Exteriores em nota encaminhada à reportagem. “Há pouca demanda para deixar o Irã, na medida em que, no caso de famílias binacionais, os homens – maridos ou filhos – não podem deixar o país em momento de guerra”.
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