Estadão na Copa: Marcel Rizzo chega à Granja Comary e mostra bastidores da preparação da seleção par
Colunista do Estadão mostra os preparativos do Brasil de Ancelotti direto do centro de treinamento.
O sorteio dos grupos colocou o Haiti no caminho do Brasil no Grupo C da Copa do Mundo. Será o segundo jogo, em 19 de junho, um encontro que divide Robert Montinard, haitiano de 50 anos que vive no Rio desde 2010. Em seu país natal, a seleção brasileira de futebol é uma paixão nacional.

Robert Montinard está com o coração dividido na Copa do Mundo. Foto: Robert Montinard/Arquivo Pessoal
“No Haiti, por exemplo, o 7 a 1 [na semifinal da Copa de 2014, contra a Alemanha] teve um impacto enorme. Houve até homicídio. Tinha gente atacando torcedores rivais. A maioria torce para o Brasil ou para a Argentina, então vira uma loucura. O haitiano é muito apaixonado pela seleção brasileira, então esse jogo na Copa é uma alegria e uma dor ao mesmo tempo porque alguém vai perder”, disse Bob, como é conhecido.
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Mediador de conflitos comunitários, produtor cultural e cofundador da Mawon, ONG que promove direitos e auxilia migrantes e refugiados na integração socioeconômica, Montinard chegou ao Brasil no ano do terremoto que deixou mais de 200 mil mortos no Haiti.
Sua casa de dois andares em Porto Príncipe foi destruída. Seu filho mais velho, Lula, ficou soterrado em outro imóvel, em que vivia com a mãe, primeira esposa de Bob. No Réveillon de 2010 para 2011, ele e sua segunda mulher, Mélanie, decidiram vir ao Rio. E nunca mais saíram.
“Minha chegada ao Brasil foi uma exceção da regra. Eu ainda era funcionário da ONU. Viajei com minha família para passar o Réveillon. Precisava encontrar outro lugar para viver, porque no Haiti já não dava mais para permanecer. Depois do Réveillon, acabamos ficando no Rio. Estava tudo legalizado, mas existiam as barreiras culturais. Logo a ficha caiu. Entrei no ritmo do Rio, mas é difícil explicar. Então é aquela coisa do copo meio cheio e meio vazio”, relatou Bob.
Robert tem três filhos. O mais velho é Lula, que tem 18 anos e recebeu o nome em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes mesmo de a família se mudar para o Brasil.
“No Haiti já existia uma admiração pelo Lula. Quando você compara com outros políticos, vê uma história de superação e os valores que ele defende. Se você perguntar a um haitiano qual é o presidente número 1, muita gente vai citar o Lula. O Haiti sente falta de uma liderança que abrace causas sociais e defenda minorias”, contou Robert.
“E o Lula Montinard conhece a história do Haiti, é super engajado. Hoje ele está na França estudando”, disse.
O segundo filho de Robert se chama Bimba, homenagem a Manoel dos Reis Machado, também conhecido como Mestre Bimba, principal responsável pela popularização da capoeira no Brasil.
“Existiu um projeto no Haiti que usava a capoeira para recuperar jovens da violência. Foi lá que descobri a história da capoeira, a luta ligada à escravidão e a importância do Mestre Bimba. Então quis manter essa memória”, contou.
O terceiro filho, o caçula Zion, gosta de ir ao Maracanã para ver os jogos do Flamengo, clube que Robert escolheu para torcer quando chegou ao Brasil.
Para o jogo de 19 de junho entre Brasil e Haiti, uma programação especial está sendo preparada pela Mawon ao lado do metrô da Glória, na zona sul do Rio. O evento será realizado em um espaço da ONG Viva Rio.
“O evento está marcado para começar às 16h, com oficinas de cultura haitiana e debates sobre direitos humanos e migração haitiana. Vamos chamar lideranças e autoridades do Rio. A partir das 19h haverá um jantar haitiano, todo mundo comendo junto, e depois música para acompanhar a transmissão do jogo (que começa 21h30, de Brasília)”, disse.
E Robert estará com a camisa do Brasil ou do Haiti?
“Dividido. Vamos torcer para uma grande Copa dos dois países e que os dois se classifiquem”, respondeu Bob. O Grupo C ainda tem Marrocos e Escócia.
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