Do endereço ao estilo de vida: Como está a mudar o luxo imobiliário

O Palácio do Freixo, no Porto, recebeu a conferência “Entre Linhas – Luxury Real Estate Insights”, promovida pelo Grupo Century21 Arquitectos, que reuniu especialistas dos sectores imobiliário, financeiro, marketing e arquitectura para debater os desafios e oportunidades do segmento de luxo em Portugal.

Moderado por Joana Resende, CEO do Grupo CENTURY21 Arquitectos, o encontro contou com a participação de Manuel Maria Gonçalves, CEO da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários – APPII, António Paraíso, especialista em Marketing, Luxo e Inovação, e Renato Reis Pereira, Head of Private Bank da Caixa Geral de Depósitos.

Ao longo da sessão, os oradores destacaram a crescente sofisticação do mercado imobiliário premium, mas também alertaram para os desafios estruturais que continuam a limitar a oferta habitacional e a capacidade de resposta do sector.

Ao Diário Imobiliário, explicaram o que significa o imobiliário de luxo, o que procuram os investidores e as potencialidades deste segmento de mercado.

Joana Resende; António Paraíso; Renato Reis Pereira e Manuel Maria Gonçalves @Francisco Magalhães

Mercado de luxo mantém procura elevada

Na sua intervenção, Manuel Maria Gonçalves sublinhou que o mercado residencial português continua a demonstrar grande resiliência, sobretudo nos segmentos médio-alto e de luxo.

“O mercado está a estabilizar após um ciclo de forte valorização, e esse é um dado positivo. Mais de metade das casas à venda em Lisboa já ultrapassam os 500 mil euros e cerca de 200 mil imóveis situam-se acima dos 200 mil euros, o que demonstra a existência de um segmento premium robusto”, referiu.

O responsável da APPII alertou, contudo, para a persistente escassez de oferta, apontando a falta de resposta da construção nova como um dos principais factores para o desequilíbrio do mercado.

Confiança legislativa é essencial para atrair investimento

Outro dos temas abordados diz respeito à competitividade de Portugal na captação de investimento imobiliário internacional.

Segundo Manuel Maria Gonçalves, o país continua a reunir condições muito atractivas para investidores estrangeiros, mas necessita de maior estabilidade regulatória.

“Portugal tem atributos reais: qualidade de vida, localização, talento e arquitetura. Mas para continuarmos a captar investimento é necessário garantir previsibilidade. O investidor de longo prazo não decide apenas com base no produto; decide com base na confiança”, afirmou.

O dirigente da APPII defendeu ainda a necessidade de processos de licenciamento mais céleres e de um enquadramento fiscal estável que permita aos promotores planear investimentos a longo prazo.

Alterações legislativas são positivas, mas exigem estabilidade

Relativamente às recentes alterações legislativas no sector da habitação e urbanismo, Manuel Maria Gonçalves considerou que várias medidas representam avanços importantes.

“Há mudanças que fazem sentido e que respondem a bloqueios que impediam projectos de avançar. O sector precisa de previsibilidade. Nos últimos anos tivemos sucessivas alterações fiscais e regulamentares, e isso dificulta o planeamento de investimentos que são feitos para décadas”, salientou.

O responsável alertou que a confiança dos investidores depende da estabilidade das regras do jogo e da capacidade do Estado em garantir segurança jurídica.

O novo luxo valoriza experiência e identidade

A componente arquitectónica do debate foi amplamente desenvolvida por Joana Resende, que destacou a crescente influência da arquitectura na valorização dos projectos imobiliários premium.

“A arquitectura deixou de ser apenas estética. Hoje é a narrativa que confere valor ao projecto. O verdadeiro luxo está na experiência de habitar, na qualidade dos espaços, na relação com a paisagem e na autenticidade do conceito”, afirmou.

Segundo a CEO da Century21 Arquitectos, os compradores internacionais procuram cada vez mais imóveis com identidade própria e forte assinatura arquitectónica.

“Os clientes premium valorizam projetos com carácter, que dialoguem com o território e que ofereçam uma experiência diferenciadora. A arquitetura tornou-se um fator de posicionamento e reputação”, explicou.

Sustentabilidade e integração substituem a ostentação

Joana Resende defendeu ainda que o conceito de luxo está a mudar profundamente.

“O luxo contemporâneo já não está associado à ostentação. Está associado ao bem-estar, à sustentabilidade, à privacidade e à integração com a envolvente. Um projeto verdadeiramente luxuoso é aquele que se sente e não apenas aquele que se vê”, referiu.

A responsável destacou igualmente o reconhecimento internacional da arquitetura portuguesa, apontando a valorização da luz, dos materiais naturais e da relação com a paisagem como factores que continuam a atrair compradores estrangeiros para Portugal.

António Paraíso; Renato Reis Pereira e Manuel Maria Gonçalves @Francisco Magalhães

Segmento premium continua resiliente

Apesar do actual contexto económico e geopolítico internacional, Manuel Maria Gonçalves considera que o segmento de luxo continuará a demonstrar capacidade de resistência.

“O segmento de maior valor tende a ser mais resiliente aos ciclos económicos. A questão central não é a falta de procura. O problema continua a ser a insuficiência da oferta para responder à procura existente”, concluiu.

A conferência terminou com uma reflexão comum entre os participantes: o futuro do imobiliário de luxo passará cada vez mais pela combinação entre arquitectura, lifestyle, sustentabilidade e experiência, num mercado onde a diferenciação e a autenticidade assumem um papel determinante.

Pode enriquecer o artigo com os contributos de António Paraíso, reforçando a dimensão do luxo, da arquitectura e da experiência no imobiliário premium:

O luxo deixou de ser apenas localização

Na perspectiva de António Paraíso, especialista em Marketing, Luxo e Inovação, o conceito de luxo imobiliário está a evoluir rapidamente e já não se limita à localização privilegiada.

“O mercado português continua muito procurado por compradores internacionais que valorizam destinos como Lisboa, Cascais, Comporta, Algarve e Porto. No entanto, hoje procuram muito mais do que localização. Procuram qualidade de vida, privacidade, experiências personalizadas e uma ligação autêntica ao território”, destacou.

Segundo o especialista, os compradores de elevado património valorizam cada vez mais a integração dos empreendimentos na natureza, a sustentabilidade, a tecnologia, o bem-estar e os serviços associados ao estilo de vida.

“Os espaços verdes, os ginásios, as áreas exteriores e os serviços premium já fazem parte da equação. O luxo moderno está associado à felicidade, à identidade e à experiência de viver”, acrescentou.

Inteligência artificial transforma a experiência residencial

A tecnologia foi outro dos temas abordados. Para António Paraíso, a inteligência artificial está a assumir um papel crescente na valorização dos activos de luxo.

“Os clientes deste segmento valorizam casas inteligentes, com automação integrada, controlo remoto da iluminação, climatização, segurança e energia. As habitações estão a tornar-se verdadeiros ecossistemas digitais”, explicou.

Além das funcionalidades tecnológicas, o especialista considera que a gestão inteligente dos edifícios e os serviços personalizados serão cada vez mais decisivos para atrair compradores internacionais.

“Os investidores procuram experiências fluidas, imediatas e altamente personalizadas. A tecnologia é hoje um elemento diferenciador na criação dessa experiência”.

Branded Residences ganham protagonismo

António Paraíso destacou igualmente o crescimento do segmento das Branded Residences, uma tendência que tem vindo a ganhar força em Portugal.

“As branded residences são um conceito particularmente apelativo porque permitem combinar a experiência imobiliária com o universo das marcas de luxo, da hotelaria e do lifestyle”, afirmou.

Segundo o especialista, estes projectos oferecem aos compradores mais do que um imóvel.

“O cliente já não procura apenas uma casa. Procura um estilo de vida, um conjunto de valores e uma ligação emocional ao projecto. O comprador quer sentir que pertence a uma comunidade e a um universo aspiracional”.

Joana Resende @Francisco Magalhães

Arquitectura e diferenciação são factores decisivos

A arquitectura assumiu igualmente destaque na análise de António Paraíso, que considera a diferenciação um dos principais desafios do mercado imobiliário premium.

“Num mercado global e altamente competitivo, a diferenciação está na capacidade de criar e oferecer experiências extraordinárias. A arquitectura tem aqui um papel fundamental porque ajuda a construir identidade, emoção e valor”, referiu.

Para o especialista, os profissionais do sector devem combinar conhecimento técnico com uma profunda compreensão das novas exigências dos consumidores.

“É preciso entender o mercado, mas também entender as pessoas. O profissional do futuro terá de saber escutar, compreender e criar soluções que respondam às expectativas de clientes cada vez mais exigentes”.

Sustentabilidade tornou-se um requisito do luxo

Outro dos temas centrais foi a sustentabilidade, que António Paraíso considera já um requisito essencial no segmento premium.

“O luxo consciente veio para ficar. Hoje os compradores valorizam eficiência energética, materiais sustentáveis, certificações ambientais e soluções que reduzam o impacto ambiental”, afirmou.

Na sua opinião, Portugal encontra-se bem posicionado para responder a esta procura internacional.

“Os compradores estrangeiros, sobretudo oriundos de mercados mais maduros, procuram projectos alinhados com princípios de sustentabilidade. A arquitectura bioclimática, os sistemas de construção sustentável e a gestão eficiente dos recursos deixaram de ser uma opção para passarem a ser uma exigência”.

Estes testemunhos complementam as intervenções de Manuel Maria Gonçalves e Joana Resende, reforçando a ideia de que o futuro do imobiliário de luxo passa pela convergência entre arquitectura, experiência, tecnologia, sustentabilidade e identidade dos projectos.

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