Djam Neguin afirma que, de alguma forma, revolucionaram o cenário da dança em Cabo Verde

A Cidade da Praia recebeu, de 11 a 16 de Maio, a quarta edição do Festival Kontornu, que reuniu participantes provenientes de vários países, entre artistas, programadores, investigadores e profissionais das artes performativas de Portugal, Brasil, Grécia, Suíça, República Dominicana, Espanha, Senegal, França e Itália.

O festival arrancou com uma homenagem à bailarina e coreógrafa Marlene Monteiro Freitas, figura incontornável da dança contemporânea internacional, cuja obra tem expandido os limites da linguagem coreográfica e inspirado novas gerações de criadores cabo-verdianos e além-fronteiras.

O bailarino e director artístico do festival, Djam Neguin, disse que o balanço é “agridoce, mas profundamente emocionante, porque quando olho para o que o Festival Kontornu se tornou, percebo que revolucionámos, de alguma forma, o cenário da dança em Cabo Verde”.

Djam Neguin acredita que já não estão apenas a organizar um festival, mas sim a criar pensamento, comunidade, circulação artística e novas possibilidades para toda uma geração. “Esta edição confirmou isso de forma muito forte. Tivemos artistas de diferentes partes do mundo e praticamente todos rasgaram elogios ao formato do festival. Muitos disseram-nos que o Kontornu é um dos festivais mais marcantes em que já estiveram em todo o mundo, não necessariamente pelo tamanho ou pelos recursos, mas pela forma humana, sensível como o festival é pensado”, afirma.

Segundo o bailarino, o Kontornu não funciona apenas como um espaço de apresentação de espectáculos. “É um espaço de encontro real entre pessoas”.

Djam Neguin sublinhou que os artistas convivem, partilham refeições, conversam, assistem aos trabalhos uns dos outros, circulam pela cidade, encontram-se com os jovens e criam relações.

“Existe uma dimensão muito humana e afectiva que hoje é rara em muitos festivais internacionais”.

Para Djam Neguin, talvez seja isso que mais o emociona: perceber que, a partir de Cabo Verde, conseguiram criar um festival com identidade própria, com impacto internacional e com uma visão muito clara sobre o futuro da dança e das artes performativas. “Sinto que o Kontornu já deixou de ser apenas um evento cultural para se tornar um movimento artístico que vai fazer com que o mundo todo queira vir a Cabo Verde”, destaca.

Festival de dança em Cabo Verde

O bailarino afirma que, em Cabo Verde, um festival desta natureza nunca corre exactamente como imaginam, porque estão sempre a lidar com muitos desafios estruturais, técnicos e financeiros. “Algumas coisas superaram as expectativas, principalmente a entrega das equipas, dos artistas e do público”.

Por outro lado, refere que houve dificuldades e coisas para resolver diariamente, mas, no final, o mais importante aconteceu: “criámos experiências marcantes e conseguimos colocar a dança e as artes performativas no centro da cidade e no centro da vida dos artistas”.

Conforme Djam Neguin, foram realizados vinte espectáculos e performances, cerca de onze workshops, mas tivemos também conversas, espaços de pensamento e ainda uma batalha de dança com jurados internacionais.

O que ficou por realizar

O bailarino disse que ficam sempre sonhos por concretizar. “Gostaríamos de ter mais condições financeiras e técnicas para expandir ainda mais o festival para os bairros, para a população e trazer mais artistas africanos, por exemplo”.

Mas, ao mesmo tempo, realçou que entenderam que o festival é um processo contínuo, pois o que não aconteceu este ano pode tornar-se semente para as próximas edições.

“É um sentimento de resistência, mas também de amor profundo. Fazer um festival como o Kontornu em Cabo Verde exige quase um acto de fé. Muitas vezes trabalhamos contra limitações muito grandes, mas continuamos porque acreditamos que a arte transforma vidas, cria pensamento crítico e abre horizontes”, aponta.

Para o bailarino, ver artistas cabo-verdianos ao lado de artistas internacionais, ver jovens a descobrir novas possibilidades através da dança, ver o público emocionado – tudo isso faz valer a pena. “É cansativo, mas é também muito bonito”.

Público

Djam Neguin revelou que o público foi incrível. “Tivemos salas muito vivas, pessoas curiosas, abertas ao risco e à experimentação. Uma das coisas mais bonitas do Kontornu é perceber que o público também cresce com o festival”.

Conforme acrescentou, hoje existe mais disponibilidade para assistir a propostas contemporâneas, híbridas e fora do convencional. “E isso é muito importante”.

Na mesma linha, realçou que o festival não quer apenas apresentar espectáculos; quer criar relação, diálogo e comunidade. “E este ano sentimos muito essa presença do público, tanto nos teatros como nos espaços públicos”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277 de 20 de Maio de 2026.

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