Direita pde conquistar espaço contra a esquerda na América do Sul

Foto: STRINGER / AFP
A candidata à presidência do Peru, Keiko Fugimori

Nos últimos quatro anos, a América do Sul viveu uma reestruturação das forças políticas que comandam os 12 países. As mudanças não devem cessar logo, considerando que um novo ciclo político tende a se estabelecer no continente.

Eleições polarizadas e que vêm recebendo a atenção do mundo têm majoritariamente colocado no poder políticos alinhados com o campo da direita, em um exercício de alternância que hoje deixa em desvantagem as forças da esquerda no continente.

O Peru é o país em destaque nas últimas semanas. Em instabilidade política de anos e passando por mais uma disputa eleitoral, o País conhecerá o seu nono presidente em dez anos. A candidata de direita Keiko Fujimori está no caminho de conquistar a Presidência por uma margem estreita de votos, enquanto o rival da esquerda, Roberto Sánchez, convoca protestos após alegar irregularidades por parte da autoridade eleitoral.

A Colômbia, que teve seu primeiro governo de centro-esquerda com o atual presidente Gustavo Petro, também passa por uma eleição em que a extrema direita tomou o protagonismo. O colombiano Abelardo de la Espriella capitalizou a indignação da opinião pública com a classe política e com a esquerda, mirando a cadeira de presidente da Colômbia. O segundo turno ocorre neste domingo.

Pelo cenário desenhado, Peru e Colômbia se somarão ao percentual de força do campo da direita na América do Sul.

No Chile, o principal candidato de direita nas eleições, José Antonio Kast, venceu a disputa contra a candidata comunista Jeannette Jara. Na Argentina, o governo alternou desde a década passada entre Kirchner, Macri, Fernández e agora com a extrema direita do libertário Javier Milei.

O presidente argentino ainda saiu vitorioso nas últimas eleições parlamentares, com grande parte de filiados ao seu partido tomando espaço no parlamento.

Segundo o professor de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutor em Ciência Política, Clayton Mendonça Cunha Filho, a tendência é de oposição aos sistemas e instituições oficiais ou vigentes na sociedade.

“Mais do que uma grande guinada para a direita, o que a gente tem visto mesmo assim como uma tendência mais forte é aqui no continente, não só no continente, mas em boa parte do mundo, são governos que ganham com o anti-establishment”, diz. “As forças que estão no governo, em geral, não conseguem se reeleger ou eleger o seu sucessor, com algumas exceções. Na maioria dos casos, são sucedidas pela oposição”, acrescenta Clayton.

Antes das eleições no Peru e na Colômbia, eram seis dos doze países sul-americanos governados por líderes que vão desde uma direita moderada até a extrema direitaa. A metade exata do continente. Assim, a região se transforma em um pêndulo que oscila entre forças opostas.

Apesar do protagonismo na América do Sul, é precipitado afirmar que esse cenário significa uma consolidação da direita como a força principal do território. A professora do curso de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, afirma que o eleitor sul-americano costuma “testar as opções” ao longo de eleições e mandatos.

“Nesse ciclo, a gente tem tido uma característica de alta polarização, eleições muito competitivas, diferenças muito pequenas, de margem entre os candidatos”, explica Denilde.

Do outro lado, a esquerda latino-americana se encontra em uma situação, não de desaparecimento ou derrota definitiva, mas de desvantagem em um cenário de alta polarização. Hoje, os países com governos de esquerda são: Brasil, Uruguai, Guiana e Suriname.

Segundo Holzhacker, o campo da esquerda vem lidando com o desafio de renovação e diálogo com grupos distintos nos países.

“A esquerda tem uma questão, também mundial, que é a dificuldade de interlocução com grupos mais jovens”, explica Denilde. Para a professora, “isso tem sido uma dificuldade para esses partidos conseguirem se renovar e conseguir dialogar com setores da sociedade que têm novas perspectivas e novas demandas”.

“Há cada vez mais dificuldade de formação de maioria, você tem uma fragmentação muito grande no sistema. Isso dificulta tanto para a gestão dos partidos vencedores de direita quanto para que os partidos de esquerda consigam fazer uma atuação para retorno e para ganhos eleitorais”, afirma Holzhacker.

Alternância entre correntes ideológicas

O continente sul-americano se alterna em “ondas” de protagonismo da direita e da esquerda.

Nos anos 2000, houve a chamada “onda rosa”, quando partidos de esquerda foram tomando conta da chefia dos países sul-americanos. O termo “onda rosa” foi usado pelo New York Times após a vitória de Tabaré Vásquez no Uruguai, primeiro político de esquerda a ser eleito presidente do país. “Não tanto uma maré vermelha… e sim uma rosa”, escreveu o jornal.

A professora Denilde Holzhacker destaca esse processo no qual ocorrem “algumas vezes ondas mais à esquerda e outras ondas mais à direita”. “Depois de uma crescente divisão, nesse momento a tendência aí é de uma onda mais à direita nas eleições, não significa que há uma consolidação. Mas a gente nunca pode afirmar que no próximo ciclo eleitoral vai ter uma volta da esquerda”, afirma.

Entre os fatores que influenciam essa alternância, estão a profunda descrença na capacidade da política tradicional de resolver problemas básicos. É nesse contexto que a figura dos outsiders, que dizem não se identificar com a política tradicional e adotam discursos anti-sistema, obtém vantagem. “Como dentro dos Estados Unidos, a ala trumpista ganhou da ala mais tradicional republicana, a gente tem uma ala de movimentos mais à direita e alguns com uma posição mais de extrema-direita que têm ganhado o voto do eleitor”, afirma a professora.

Mas, enquanto a direita conservadora busca manter as instituições, os outsiders atuais são classificados como reacionários ou de extrema direita. Encaixam-se na descrição figuras como Javier Milei, Jair Bolsonaro e Keiko Fujimori.

Interesse dos EUA na América do Sul molda política interna dos países sul-americanos

A relação dos Estados Unidos com a América do Sul é marcada por um histórico de intervenções diretas e indiretas, cujo nível de intensidade varia conforme as prioridades globais de Washington.

Na Argentina, por exemplo, os Estados Unidos foram cruciais para evitar uma derrota do partido de Javier Milei. O professor de Ciência Política, Clayton Mendonça Cunha Filho, registra que, mesmo com pesquisas indicando a derrota do governismo nas eleições parlamentares, a sigla conseguiu se recuperar após os EUA confirmarem acordo de US$ 20 bilhões com o País.

“No fim, nem entregaram tantos bilhões assim, mas os analistas indicam que foi suficiente para mudar aquele resultado e permitir uma vitória relativa do partido do Milei, melhorar a presença dele no parlamento”, diz Cunha Filho.

Para o professor, existe uma relação entre o interesse pessoal dos Estados Unidos e as guinadas à direita e à esquerda dos países sul-americanos. “Existem estudos que interrogaram a questão de que esse ciclo de esquerda que tivemos na América Latina não se deveu, entre outros motivos, a um desengajamento relativo dos Estados Unidos naquele momento”.

Ele menciona os ataques terroristas do 11 de setembro, que fizeram o país norte-americano cravar o Oriente Médio como prioridade na política externa. “Vamos lembrar qual era o contexto do governo do George W. Bush, que inicia as guerras no Iraque e no Afeganistão. E aquilo passou a ser a grande prioridade de política externa dos Estados Unidos, depois do 11 de setembro. E fez com que os Estados Unidos deixassem a América Latina um pouco de lado”, explica Clayton.

Segundo ele, esse desengajamento na América do Sul teria “permitido uma maior autonomia para a região, possibilitado essa chegada de governos de esquerda”.

Para o Peru e a Colômbia, que vivem simultaneamente um período de disputa eleitoral acirrada, a relação política com os Estados Unidos e o apoio americano demonstram-se de forma distinta. Na Colômbia, a relação é pautada historicamente pelo apoio americano no combate ao narcotráfico e às guerrilhas. Já no Peru, a influência americana coloca em xeque os interesses e as alianças feitas com a China.

Nesse contexto de capilaridade, a professora Denilde Holzhacker destaca que será possível entender qual vai ser a posição dos Estados Unidos “frente aos resultados, o que pode também gerar um modelo da atuação americana para outros países também da região”.

“Acho que esse é um ponto crucial para entender aí e que faz com que a gente entenda também como vão ficar não só os equilíbrios internos, mas também a geopolítica regional nesse caso”, acrescenta Holzhacker.

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