Eixo Geoestratégico: Washington – Lisboa – Caracas
A atual conjuntura geopolítica, a Venezuela consolidou a sua posição como um dos principais fornecedores de crude aos Estados Unidos da América. Mais do que isso, a nação sul-americana converteu-se no epicentro energético global, com as maiores petrolíferas do mundo a firmarem acordos estratégicos naquelas que constituem as maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo (estima-se para os proximos anos investimentos acima dos 100 mil milhões de dólares).
Para além do “ouro negro”, também o gás natural tem suscitado uma enorme atratividade internacional, considerando que o país alberga uma das principais reservas globais deste recurso, fundamental para a atual transição energética.
Contudo, para que a indústria pesada opere em pleno, urge reabilitar toda a infraestrutura de geração elétrica, projetando-se uma necessidade de investimento direto na ordem dos 15 mil milhões de dólares para os próximos anos.
Paralelamente, no xadrez europeu, Portugal destacou-se como um dos poucos Estados a conceder “via verde” à utilização da Base Aérea das Lajes e do seu espaço aéreo por parte de Washington. Esta relação transatlântica assume uma relevância ímpar para a nossa política externa, consolidando o nosso país como a ponte geoestratégica natural entre os EUA e a Europa. Esta sinergia tem sido sublinhada pelas recentes interações diplomáticas, nomeadamente através dos contatos divulgados entre o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, e o Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
Simultaneamente a esta orquestração de investimentos multimilionários norte-americanos em megaprojetos na Venezuela, a diplomacia portuguesa tem sabido manter canais de diálogo ativos. O Governo português, por intermédio do Secretário de Estado das Comunidades, Dr. Emídio Sousa, tem encetado negociações com as autoridades locais em várias frentes, das quais se destaca recente libertação do luso-venezuelano Héctor Ferreira.
Impõe-se, pois, a seguinte reflexão: se o Governo de Espanha — tradicionalmente um ator de peso na região — optou por um distanciamento face à atual administração norte-americana, gerando um vazio geopolítico europeu na Venezuela, não deverá Portugal capitalizar a sua robusta presença histórica no país para reafirmar a sua posição de liderança?
Importa salientar que possuímos uma extensa rede diplomática e consular no território, alicerçada por uma comunidade de mais de 300 mil luso-descendentes diretos e fala-se em um total de um milhão com os indiretos, espalhados por todo o país. Esta diáspora detém uma influência determinante no tecido económico local, controlando mais de 80% do setor da grande distribuição (hipermercados e supermercados), além de uma presença capilar na restauração, panificação, construção civil, indústrias e comercio.
A história partilhada entre ambas as nações está também cravada de projetos de infraestruturas desenvolvidos por multinacionais portuguesas, alguns contratos aguardam conclusão. É de domínio público que importantes instituições financeiras em Portugal ainda gerem ativos retidos de organismos venezuelanos e que, historicamente, a nossa balança comercial tem sido de constantes superávits, impulsionada pela exportação de bens alimentares e materiais de construção.
Ao longo de décadas, a Venezuela assumiu-se como uma das prioridades da nossa diplomacia. Recordemos as visitas de Estado, desde o Primeiro-Ministro Aníbal Cavaco Silva em 1994, até aos mandatos subsequentes, que envolveram figuras de proa da nossa política externa, nomes como Jose Sócrates, Paulo Portas, Augusto Santos Silva, Luís Amado, os Sec. de Estado José Cesário, José Luís Carneiro, Paulo Cafofo, configurando o que muitos designaram como o “El Dorado” das relações bilaterais e com níveis muito elevados das exportações nacionais.
A este património relacional acresce a expressiva presença de luso-descendentes em quadros superiores dos diversos organismos estatais da República Bolivariana da Venezuela, que nutrem um profundo respeito pelas suas raízes e pela língua de Camões, facilitando pontes de diálogo insubstituíveis.
Num cenário macroeconómico onde se perspectivam crescimentos modestos para a Europa nos próximos anos, e perante a incerteza das consequências para as nossas economias decorrentes da volatilidade dos mercados petrolíferos, este é o momento de agir.
Em estreita articulação com a atual administração em Washington, urge desenhar uma estratégia diplomática e comercial agressiva, focada na internacionalização e reposicionamento das empresas portuguesas na Venezuela — um mercado que, segundo as projeções financeiras internacionais, deverá registar um dos maiores crescimentos económicos globais nos próximos anos, na ordem dos dois dígitos.
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