Uma das grandes histórias desta Copa do Mundo é, sem dúvidas, a volta do Haiti. O país do Caribe vai disputar o Mundial apenas pela segunda vez — a primeira em 52 anos. No distante ano de 1974, a seleção haitiana se classificou para aquela edição disputada na Alemanha Ocidental. Perdeu os três jogos da fase de grupos para Itália, Polônia e Argentina, mas teve a experiência de disputar o principal torneio do futebol.
O Haiti se classificou diretamente para o torneio após terminar em primeiro no grupo que tinha, além dele, Honduras, Costa Rica e Nicarágua, nas eliminatórias da CONCACAF para a Copa.
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Agora, de volta à competição, a expectativa é enorme para escrever uma nova história. Trata-se de um país que atravessa uma grave crise humanitária e política: cerca de 80% da população vive na pobreza.
Gangues criminosas detêm controle territorial significativo, impedem o funcionamento do governo e bloqueiam estradas, agravando ainda mais a instabilidade. O país não realiza eleições desde 2016.
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Diante desse cenário, o futebol surge como uma ferramenta de esperança, inclusão social e orgulho nacional, funcionando como um refúgio em meio ao caos. A participação haitiana na Copa vem para promover a união no país.
Para entender melhor esse contexto e conhecer mais sobre a seleção — que será a segunda adversária do Brasil no torneio —, o Flashscore conversou com Badio Stanley Nosier, jogador haitiano que atua como meia no Pérolas Negras, do Rio de Janeiro. Criado pela ONG Viva Rio no Haiti, em 2009, o projeto social utiliza o futebol para educar jovens no país e profissionalizar atletas de destaque no Brasil.
Como joga a Seleção do Haiti
O Haiti é comandado por Sebastien Migné, francês com experiência em outras seleções, como Congo, Quênia e Guiné Equatorial. Ele assumiu o comando técnico em 2024, na vaga do espanhol Gabriel Pellegrino. De acordo com Badio, essa mudança também impactou o estilo de jogo da equipe.
“Há dois anos, antes da troca de treinador, a gente via uma seleção que buscava se adaptar a um estilo de jogo com muita posse de bola e troca de passes. Agora, com o novo treinador, vemos o Haiti como um time mais retrancado, com mais força física e marcação. E acredito que isso pode ser uma boa surpresa para as seleções que vamos enfrentar.”
Isso não significa que o time abdique de atacar. O Haiti teve o quinto melhor ataque das eliminatórias da CONCACAF, com 20 gols marcados em 10 jogos — média de dois por partida.

Quem é a grande estrela?
Antes de apresentar os destaques da seleção do Haiti, é importante ressaltar que nenhum atleta do elenco atua no próprio país. Badio explicou o motivo:
“Nosso futebol no Haiti não é um futebol de oportunidade, atualizado. A maioria dos jogadores, quando começa no Haiti, tende a sair do país para buscar o melhor para si. (…) Ficar no Haiti faz a gente ficar naquele futebol mais preso. Então é bom sair. Por isso, a maioria — para não dizer todos — joga fora.”

O grande destaque da seleção é Duckens Nazon, maior artilheiro da história da equipe, com 44 gols em 80 jogos.
“Nazon é um cara muito respeitado por toda a população do Haiti. Fez seu nome lá, pela Seleção, com vários gols que já marcou”, afirmou Badio.
Nazon defendia o Esteghlal Tehran, do Irã. Com a Guerra no país, precisou sair às pressas em meio aos bombardeios de Estados Unidos e Israel e agora vive um momento de incerteza sobre o futuro no clube. Acumula passagens por Wolverhampton, Coventry City, St. Mirren e CSKA Sofia.
O meia do Pérolas Negras também destacou outro jogador: Jean-Ricner Bellegarde.

“É um cara mais jovem. Ele está jogando na Inglaterra. São dois jogadores que atuam no exterior e têm um ritmo bacana para enfrentar essas seleções.”
Bellegarde atua há três temporadas pelo Wolves e soma uma passagem de cinco anos pelo Strasbourg. Meia, é considerado o principal cérebro da equipe haitiana.
Candidato a surpresa
Como possível surpresa, Badio aponta para alguém que já trilhou passos semelhantes aos dele no passado:
“É um menino, um meia, com quem eu já joguei contra. O nome dele é Danley Jean Jacques. Ele passou pelo Pérolas Negras, o time em que jogo agora, e é um jogador muito bom. Pode surpreender.”

Danley joga atualmente no Philadelphia Union, da MLS. Teve sete participações em gols no ano passado, em 37 partidas, e já balançou as redes duas vezes na atual temporada. Pela seleção, soma seis gols e três assistências em 29 jogos. É presença constante nas convocações de Migné desde que o treinador francês assumiu, iniciando todos os jogos desde junho de 2024.
Como é vivido o futebol no Haiti
Conforme explicado no início da reportagem, o futebol possui um papel social fundamental no Haiti.
“É um país muito apaixonado por futebol. Não à toa, é o esporte mais praticado no Haiti. Desde 1974 que não participamos da Copa. Dessa vez, há esperança. Muita coisa está sendo falada. A guerra, que está muito brava no Haiti, para quando tem jogo. O futebol representa muita coisa”, explicou Badio.

Além disso, segundo o meia, existe uma ligação muito forte com o Brasil. A própria iniciativa do Pérolas Negras já demonstra isso, mas outras ações — como a atuação do Exército Brasileiro no Haiti, liderando a Missão de Paz da ONU entre 2004 e 2017, e a oferta de visto humanitário e oportunidades para haitianos após o terremoto de 2010 — contribuíram para estreitar essa relação.
“Quando o Haiti não participa da Copa, nossa seleção é o Brasil. Quando o Brasil está jogando, o governo coloca telões nas ruas. Pessoas que vão trabalhar têm um tempo para voltar para casa e assistir ao jogo”, revelou.
Diante disso, o confronto entre Brasil e Haiti, reeditando o histórico “Jogo da Paz” — promovido pela ONU e pelo Governo Brasileiro em 2004 e que parou o país caribenho —, será especial para os haitianos.

“Para mim foi uma alegria imensa. Porque, queira ou não, nós que somos haitianos gostaríamos de passar de fase. Mas, quando você vê Haiti, depois Brasil, depois Marrocos… dá aquele medo, mas ao mesmo tempo é uma alegria enorme, porque o Haiti tem o Brasil como segunda seleção. Ao mesmo tempo que deu medo, deu aquela alegria. Caraca! O Haiti vai enfrentar o Brasil. Para quem eu vou torcer?”, afirmou Badio.
Agenda do Haiti no mundial
13/6 (sábado)
22h – Haiti x Escócia (Gilette Stadium – Boston) – CazéTV
19/6 (sexta-feira)
21h30 – Brasil x Haiti (Lincoln Financial Field – Filadélfia) – Globo, SporTV, CazéTV, SBT/N Sports e Flashscore (comentários em áudio)
24/6 (quarta-feira)
19h – Marrocos x Haiti (Mercedes-Benz Stadium – Atlanta) – CazéTV e Flashscore (comentários em áudio)
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