Colômbia escolhe novo presidente em eleição que pode ampliar influência de Trump na América do Sul

Eleição na Colômbia mostra força do discurso outsider e antipolítica

Crédito: Produção: Beatriz de Souza/Imagem e som: Felipe Oliveira (Felps)

A Colômbia vai às urnas neste domingo, 21, para escolher entre Iván Cepeda, de esquerda, ou Abelardo de la Espriella, candidato de direita radical. A disputa, de certa forma, reprisa os embates recentes entre o atual presidente, o líder de esquerda Gustavo Petro, e o americano Donald Trump, que declarou apoio ao candidato populista colombiano.

O republicano declarou apoio a De la Espriella, um outsider politico e admirador do salvadorenho Nayib Bukele. Do outro lado da disputa, Cepeda, o candidato do líder colombiano, é um senador que ficou conhecido como o arquiteto do plano de Paz Total de Petro. Esse formato repete eleições anteriores na América Latina e pode favorecer a direita populista, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão.

O último levantamento do agregador de pesquisas do jornal La Silla Vacía mostra De la Espriella na liderança com 51% das intenções de voto, contra 44% de Cepeda, com apenas 2% de indecisos e 4% sinalizando voto em branco. O cenário representa uma virada expressiva em relação ao início de maio, quando Cepeda aparecia à frente e o índice de indecisos e votos em branco chegava a 32% somados. O outsider parte como favorito, mas o primeiro turno mostrou que as pesquisas podem errar feio na Colômbia.

O resultado do primeiro turno surpreendeu analistas e mercados. De la Espriella, do partido Defensores da Pátria, alcançou 43,7% dos votos, com mais de 10 milhões de eleitores, contra 40,9% de Cepeda, que aparecia à frente em todas as pesquisas de intenção de voto, algumas chegando a apontar uma diferença de quase dez pontos percentuais entre os dois. Juntos, os candidatos concentraram 85% dos votos, tornando o pleito o mais polarizado da história recente do país.

Vista aérea de outdoors do candidato presidencial Abelardo de la Espriella (à direita), e Iván Cepdepa, nas próximas eleições presidenciais em Cali, Colômbia, em 17 de junho de 2026 Foto: Joaquin SARMIENTO / AFP

A participação na primeira rodada de votações foi de 57,9%, recorde dos últimos anos, com quase 24 milhões de pessoas indo às urnas de um total de mais de 41 milhões de eleitores habilitados. Como o voto na Colômbia é facultativo, os mais de 17 milhões de ausentes podem ser determinantes no segundo turno.

O centro praticamente não demonstrou força na eleição. A direita tradicional colombiana, representada por Paloma Valencia, apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, teve um desempenho muito abaixo do esperado. Ela conseguiu apenas 1,6 milhão de votos, menos de 7% do total. A disputa ficou concentrada nos extremos, repetindo um padrão que tem se tornado regra nos últimos ciclos eleitorais da América Latina.

No Peru, a filha do ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko Fujimori, lidera o segundo turno contra o esquerdista Roberto Sánchez. No Chile, o conservador José Antonio Kast venceu a comunista Jeannette Jara.

Na Colômbia, o desempenho de De la Espriella no primeiro turno tem uma explicação clara para o doutor em Ciência Política pela UERJ Andrés Londoño Niño: o candidato aprendeu com outras campanhas de direita bem-sucedidas na região. “Ele se inspirou em políticos como Bolsonaro (Brasil), Bukele (El Salvador), Milei (Argentina), Kast (Chile)”, afirma.

De la Espriella é um advogado que ficou conhecido por ter defendido casos controversos envolvendo paramilitares e pessoas da elite econômica. Duplo cidadão americano e colombiano, ele registrou sua candidatura coletando assinaturas de cidadãos, recusando o apoio de partidos políticos e de grandes grupos empresariais, o que contribuiu para seu apelo popular.

Combinação de fotos mostra os candidatos à presidência da Colômbia, Abelardo de la Espriella (à esquerda), em 6 de maio de 2026, e Iván Cepeda, em 26 de fevereiro de 2026, em campanha antes das eleições Foto: AP

A professora Patrícia Muñoz Yi, do Departamento de Ciência Política da Universidade Javeriana, explica que esse tipo de candidatura se beneficia de um descrédito crescente nas instituições. “A erosão das instituições políticas, especialmente dos partidos políticos e do Congresso da República, é o que torna a imagem de um candidato que surge de fora dessas instituições ainda mais positiva”.

Do outro lado, Cepeda carrega justamente o peso dessa trajetória institucional. Senador por vários mandatos, membro do Polo Democrático e do Pacto Histórico, o candidato apoiado por Petro é visto como o representante da esquerda, com uma carreira construída dentro do sistema que parte do eleitorado rejeita.

Filho do líder esquerdista Manuel Cepeda Vargas, assassinado em 1994, Cepeda ficou conhecido como o arquiteto do plano de Paz Total de Petro. Ele também foi facilitador das negociações entre o ex-presidente Juan Manuel Santos e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que resultaram no acordo de paz de 2016 e renderam a Santos o Nobel da Paz.

O peso do governo de Petro

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A herança do governo de Gustavo Petro é um dos fatores centrais desta disputa. A opinião pública está dividida quase ao meio na avaliação do presidente. Pesquisa da Atlas Intel e da Revista Semana mostra aprovação de 42,7% e desaprovação de 53,2%. Já o levantamento Guarumo aponta que 50,3% classificam o desempenho do governo como “muito bom” ou “bom”, contra 44,5% que o avaliam negativamente.

Para Muñoz Yi, essa divisão se reflete diretamente nas intenções de voto: “O desgaste que um governo sofre em seu último ano, a possibilidade de uma avaliação menos positiva por não ter cumprido todas as promessas de campanha, tudo isso pesa muito sobre qualquer próxima gestão”, analisa a professora.

O plano de Paz Total, principal bandeira de Petro e marca registrada de Cepeda, é uma dessas problemáticas. A Fundación Ideas para la Paz (FIP) apontou desde o início que o projeto era “muito amplo, ousado em sua abordagem, porém desconectado das realidades territoriais e institucionais”. Em seu relatório de três anos de gestão, a fundação confirmou que “o processo de paz permanece sem rumo e carente de uma estratégia clara”. Nesses anos, os confrontos armados aumentaram e os grupos ilegais se expandiram.

Trump na disputa

Após o primeiro turno, o presidente americano Donald Trump publicou no Truth Social seu apoio “total e irrestrito” a De la Espriella, a quem chamou de “El Tigre”, e caracterizou Cepeda como um “marxista de esquerda radical”. Em resposta, o presidente colombiano Gustavo Petro escreveu nas redes sociais que “quando um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre.”

O episódio reacendeu o debate sobre o papel dos Estados Unidos nas eleições latino-americanas. Para Londoño Niño, a interferência americana na região não é novidade, mas ganhou contornos mais explícitos com Trump.

Com o governo de Trump, há uma interferência muito mais direta e explícita nas eleições dos países, com um interesse direto em favorecer políticos de direita, porque esses políticos, geralmente, são mais alinhados aos interesses americanos

Andrés Londoño Niño, doutor em Ciência Política pela UERJ

A Colômbia é o principal país da região que recebe apoio militar dos Estados Unidos, e historicamente sua política externa tem sido, em geral, de baixo perfil e alinhamento com Washington. A eleição de De la Espriella representaria, nesse sentido, um retorno a essa lógica, após o período de tensões diplomáticas com Petro.

Contudo, Muñoz Yi avalia que o apoio de Trump dividiu a opinião pública, mas provavelmente não mudou votos. “Em vez de ser um fator decisivo para o candidato, creio que ele reafirma o apoio daqueles que já haviam decidido apoiá-lo e confirma a rejeição daqueles que já haviam decidido apoiar o candidato da oposição”, ela analisa.

Colômbia escolhe um novo presidente

Colombianos vão às urnas em 31 de maio no primeiro turno das eleições para suceder Gustavo Petro. Crédito: Reportagem: Carolina Marins; Edição: Amanda Dantas

De la Espriella promete romper com a política de negociação e adotar uma linha dura contra os grupos armados. Inspirado no modelo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, ele propõe a construção de dez prisões de segurança máxima e um combate militar às guerrilhas, com o reforço da cooperação com os Estados Unidos. Também promete reduzir impostos e manter os aumentos do salário mínimo implementados por Petro.

Durante a campanha, o candidato de direita radical repetiu padrões de campanhas de direita de outros países. Dentre eles, o apelo a símbolos nacionais, como o uniforme da seleção colombiana de futebol – que De la Espriella adotou como traje oficial de campanha – o discurso confrontador e a forte presença nas redes sociais.

O candidato à presidência da Colômbia, Abelardo de la Espriella, do movimento Salvadores de la Patria Foto: Rodrigo Buendia / AFP

Apoiadores do candidato presidencial colombiano Abelardo de la Espriella, do movimento Salvadorenhos da Pátria, acenam com bandeiras nacionais durante um comício em Cartagena, Colômbia, em 9 de junho de 2026 Foto: Manuel PEDRAZA / AFP

É de se esperar ainda um contrapeso no Congresso colombiano e em tribunais superiores caso De la Espriella vença. “A oposição seria representada no Congresso pelo maior bloco de senadores e deputados, liderado pelo Pacto Histórico”, Muñoz Yi explica.

O que o próximo presidente vai herdar?

Seja qual for o vencedor, o novo presidente colombiano assumirá um país com crescimento econômico baixo, inflação acima da meta e dívida pública crescente, apesar de melhorias em indicadores de pobreza e desemprego. A violência voltou a aumentar com a fragmentação dos grupos armados, e o sistema de saúde colombiano está à beira do colapso financeiro.

A eleição deste domingo é antecipada como uma das mais acirradas da história recente do país. A alta polarização deve impulsionar a participação no segundo turno. Sendo os eleitores indecisos, aqueles que ficaram em casa no primeiro turno ou votaram nos candidatos eliminados, o grande fator decisivo.

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