Cancro. A injeção “sem precedentes” que vem para Portugal – Observador

Cerca de 2.500 a 3 mil portugueses recebem o diagnóstico de cancro da cabeça e do pescoço todos os anos. É o sétimo tipo de cancro mais comum no mundo, precisamente porque engloba vários tipos de doenças. Os casos mais comuns nascem na boca ou na garganta, manifestando-se através de sintomas como dor a engolir, que progridem para uma crescente dificuldade a comer ou falar. Em casos de evolução rápida do tumor ou de falta de tratamento na altura certa, o prognóstico associado a este tipo de cancro pode tornar-se muito negativo. E, num universo onde existem poucas opções terapêuticas, surge uma revelação “extremamente promissora” de que, ao longo deste ano, chegará a cinco centros hospitalares em Portugal numa terceira fase de ensaios clínicos.

Os resultados do estudo OrigAMI-4 — a segunda fase de ensaios — foram divulgados à comunidade científica este fim-de-semana em Chicago, durante a maior conferência de oncologia do mundo. Na Asco (American Society of Clinical Oncology), como é conhecida, os investigadores do Institute of Cancer Research, do Reino Unido, que lideraram o consórcio, revelaram ter conseguido erradicar ou diminuir significativamente a expressão do tumor em quase metade dos pacientes. Todas as 102 pessoas que participaram no estudo já haviam recorrido às técnicas habituais de imunoterapia e quimioterapia, mas sem efeito.

Cancro. Injeção pode erradicar tumores inteiros em doentes, demonstra estudo

Destas, 43 pessoas viram melhorias “sem precedentes” naquela fase da doença, de acordo com Kevin Harrington, um dos autores. Em 15 dos pacientes, o tumor foi totalmente eliminado. “Estamos perante respostas de uma eficácia sem precedentes em pacientes cuja doença se tornou resistente tanto à quimioterapia como à imunoterapia. Trata-se de um grupo de doentes para o qual as opções terapêuticas são extremamente limitadas, pelo que observar este nível de benefício é algo muito impressionante”, afirmou o investigador num comunicado emitido pelo Institute of Cancer Research este domingo.

Tudo começa com uma injeção subcutânea de amivantamab, um medicamento desenhado pela Johnson & Johnson, que tem vindo a ser utilizado principalmente como opção de tratamento para cancro de pulmão de não pequenas células — o tipo mais comum, que representa cerca de 85% de todos os casos. A segunda injeção vem ao oitavo dia, e a terceira chega pouco tempo depois. A partir daí, com uma variação gradual das doses, o medicamento passa a ser administrado de três em três semanas. Os resultados começam a notar-se na sexta semana e, neste caso, manifestaram-se, de alguma forma, em 77% da população.

O próprio método de administração do tratamento difere da abordagem tradicionalmente utilizada para esta doença. Não é uma injeção intravenosa, mas sim entre a pele e a primeira camada de músculo, numa técnica semelhante àquela que é utilizada entre os diabéticos para administrar insulina — o que torna o processo “mais rápido e conveniente para os pacientes”. Relativamente a efeitos secundários, os autores do estudo descrevem-nos como tendo sido “leves” ou “moderados”, dando o exemplo de casos de hipoalbuminemia (níveis baixos de albumina, uma proteína produzida pelo fígado), irritações na pele, dermatite ou fadiga como os efeitos mais comuns. Notam que dos 102 pacientes, seis tiveram de interromper o tratamento devido aos efeitos secundários.

Com os olhos postos já na terceira — e maior — fase dos ensaios clínicos, o autor principal do estudo sublinha que estes resultados “oferecem dados de suporte muito robustos para o potencial desenvolvimento do amivantamab em fases mais precoces do cancro de cabeça e pescoço recidivado ou metastático, tendo ajudado a fundamentar o lançamento de um ensaio clínico de Fase III para registo, o OrigAMI-5”. “Este tratamento tem o potencial de beneficiar milhares de doentes todos os anos”, acrescenta, incluindo os portugueses que vão participar nesta terceira fase de ensaios.


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