O Brasil vai ganhar 46 novos médicos que se formaram na Venezuela. O grupo passou mais de seis anos estudando medicina na Escola Latino-Americana de Medicina (Elam) e já está de malas prontas para retornar ao país.
Cindy Allen está feliz em voltar ao seu território, no Mato Grosso do Sul, mas triste por se despedir do país que a acolheu.“É um país pelo qual me apaixonei, uma terra que me recebeu super bem, que me deu educação de qualidade e qualidade de vida dentro das condições que tinha. Sou apaixonada pela Venezuela e estou triste por estar retornando, no sentido de que não vou pertencer mais a essa cultura, a esse povo, à essa música, à arepa e à toda a cultura da Venezuela”, afirma a médica.
“Eu construí uma família na Venezuela, amigos, gente que me quer bem e gente que eu quero bem, gente com quem tive contato uma vez como paciente e que me escreve até hoje como se fôssemos vizinhos íntimos. O povo venezuelano tem essa característica de abraçar todo mundo”, completa.
Há mais de duas décadas, dezenas de jovens Sem Terra e de outros movimentos populares do Brasil e de outras partes do mundo vêm ao país sul-americano para estudar medicina. Uma das sedes está localizada em San Antonio de los Altos, na região metropolitana de Caracas, onde os estudantes que já se formaram aguardam para retornar ao Brasil. Além dos brasileiros, a turma de formandos deste ano conta com estudantes de outros quatro países.
Felipe Martins veio de Pernambuco e relata a riqueza da experiência. “A gente chegou aqui muito jovem, sem muita experiência e com muita coisa para aprender ainda. Eu acho que além dessa diversidade, a idade pouca que a gente tinha também foi muito boa para essa troca. Já chegamos aqui em 2019 para uma preparatória, ninguém falava espanhol praticamente, e a gente tinha que conviver com quem falava inglês e com quem falava árabe”.
A formatura foi realizada em dezembro, e desde então os novos médicos tramitam a liberação dos documentos e o registro junto às autoridades venezuelanas. Enquanto isso, se preparam para outro desafio, já que no Brasil ainda terão que passar pelo processo de revalidação do diploma.
A paraense Camila Azevedo tem aproveitado o tempo livre para se preparar para o exame. “A gente sabe que é uma prova bem difícil de lidar, mas para a qual a gente tem se preparado e estudado. A primeira etapa é isso, ter um pouco do conforto do lar para se concentrar, se centralizar e apostar na revalidação. Posterior a isso, eu tenho um sonho de especialidades e algumas opções, mas a que eu tenho mais tendência para ir, além da saúde da família, é a saúde indígena. Um sonho um pouco mais alto que é ginecologia e obstetrícia, para trazer vida ao mundo”, diz a nova médica.
Toda a base curricular do curso está voltada ao atendimento a comunidades vulneráveis e à chamada Medicina Integral Comunitária. É esse diferencial que eles pretendem levar a seus territórios.
“Eu acredito que nossa grade curricular, do médico integral comunitário, é voltada às pessoas mais vulneráveis e às populações mais periféricas. O programa é desenhado nesse sentido. A gente tem a missão Bairro Adentro, na qual desde o primeiro ano entramos em comunidades, fazemos o acompanhamento das pessoas nas suas casas e também recebemos uma formação política muito boa, com história da Venezuela e pensamento latino-americano político”, conta Felipe.
“A expectativa é chegar no Brasil e tentar aplicar esses conhecimentos, tentar ajudar formando médicos também no sistema mais tradicional para que haja essa parte mais social e inclusiva que a medicina pode e deve assumir. Já que cuidar do povo é uma tarefa complexa e não é feita para quem quer buscar o mercado, a gente precisa ter desde a formação essa perspectiva de cuidar do povo”, completa o médico.
“Existe uma filosofia da medicina aqui que dita que a medicina é integrada e o paciente é um ser biopsicossocial. Ele não é só uma pressão alta ou uma diabetes, ele é um ser biológico, psicologicamente e socialmente envolvido no todo. E a gente ajuda não só a particularidade de cada paciente, como a particularidade também das comunidades. O processo comunal na Venezuela é um processo muito bonito e já tem mais de 20 anos dentro da constituição venezuelana. A medicina aqui também é voltada para isso, para a comunidade em si, não só para o indivíduo, mas para todo o contexto da situação em que ele vive”, diz Camila Azevedo.
Para Isabel Passos, militante do MST responsável por acompanhar os estudantes da Elam, são os territórios de luta no Brasil que mais ganham com o retorno dos 46 novos médicos brasileiros ao país.
“No Brasil a gente tem um grande vazio assistencial, principalmente quando se refere à população do campo. Então, poder ter a oportunidade de pessoas dos assentamentos e acampamentos virem se formar aqui na Venezuela e poderem voltar ao Brasil com o compromisso de ficarem nos seus territórios, de apoiarem a sua comunidade, faz muita diferença nesse sentido”, avalia.
A Escola Latino-americana de Medicina nasceu em 2005, a partir de um acordo entre os então presidentes de Cuba, Fidel Castro, e da Venezuela, Hugo Chávez. Desde a sua fundação, já formou mais de 1.500 profissionais de 37 países, principalmente da África e da América Latina.
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