Brasil tem 11 cidades entre as mais ameaçadas por ondas de calor, segundo Oxford

Bloomberg Línea — Um estudo publicado na revista Sustainable Cities and Society examina 205 cidades com mais de um milhão de habitantes para avaliar como as condições de calor afetam as populações urbanas e o quanto os habitantes são vulneráveis a sofrer danos em razão de suas características sociodemográficas e econômicas.

Em muitas grandes cidades, o calor extremo coincide com alta vulnerabilidade e capacidade limitada de resposta. Essa combinação pode elevar consideravelmente o risco associado ao calor e, em alguns casos, ter consequências fatais, segundo o estudo.

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De acordo com a análise, Índia, Paquistão, Nigéria e Gana concentram o maior número de cidades com pontuações elevadas de risco, e mais de 95% das cidades mais expostas a ondas de calor estão no sul e sudeste da Ásia e na África Subsaariana.

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Importantes destinos turísticos e centros de negócios internacionais — como Cairo (Egito), Bangkok (Tailândia), Hanói (Vietnã) e Jaipur (Índia) — também figuram entre as 50 primeiras colocadas. O topo do ranking é ocupado por Basra, no Iraque, como a cidade de maior risco.

A vulnerabilidade do Brasil e da América Latina

Nessa classificação das cidades mais vulneráveis do mundo a ondas de calor, Barranquilla (Colômbia) lidera entre as cidades da América Latina e do Caribe, na 11ª posição global.

Manaus, capital do Amazonas, fica em terceiro lugar na região e é a cidade brasileira mais vulnerável, segundo o ranking.

O estudo inclui ainda outras cidades da região distribuídas ao longo do ranking mundial, entre elas Port-au-Prince, Lima, Bogotá, Caracas, Santiago, Buenos Aires e Montevidéu, além de importantes centros urbanos do Brasil e do México:

Posição Cidade País
11 Barranquilla Colômbia
19 Port-au-Prince Haiti
27 Manaus Brasil
44 Guayaquil Equador
46 Goiânia Brasil
47 Mérida México
52 Lima Peru
54 Cali Colômbia
56 San Luis Potosí México
60 Maracaibo Venezuela
66 Belo Horizonte Brasil
67 Fortaleza Brasil
73 Querétaro México
77 São Paulo Brasil
78 Puebla México
80 Guadalajara México
82 Cidade da Guatemala Guatemala
83 Rio de Janeiro Brasil
88 Brasília Brasil
89 Recife Brasil
93 Salvador Brasil
94 Cidade do México México
110 Toluca México
112 Caracas Venezuela
116 Bogotá Colômbia
118 Quito Equador
119 Curitiba Brasil
120 Porto Alegre Brasil
129 Salvador Brasil
143 Buenos Aires Argentina
151 Montevidéu Uruguai
172 Medellín Colômbia

Entre os achados da análise, a organização da sociedade civil Periodistas por el Planeta (PxP) destaca que o risco real não se limita a temperaturas e umidade, mas resulta de uma combinação de fatores socioambientais com impacto direto sobre a população.

Uma família na região sofre com a inflação energética e as tarifas de energia elétrica proibitivas: mesmo que consiga comprar ventiladores, resfriadores e ar-condicionado, não tem condições de arcar com o uso diário desses equipamentos, o que limita sua capacidade de se proteger do calor.

Além disso, a alta proporção de crianças de até quatro anos e de idosos acima de 65 eleva drasticamente o risco nas capitais, que vivem uma transição demográfica acelerada em direção ao envelhecimento — sem contar com infraestrutura hospitalar nem habitacional preparada para choques térmicos.

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Outro fator é a falta de cobertura arbórea uniforme nas capitais da região, onde os bairros ricos são verdes e as periferias são de asfalto e concreto. “Isso demonstra que a segregação urbana na América Latina se traduz diretamente em maior risco de morte por calor para as classes mais pobres”, afirmou a PxP.

Diante desse cenário, a iniciativa alerta que as estratégias de adaptação não podem se limitar a importar modelos de “cidades inteligentes” desenhados para realidades distintas das latino-americanas.

Segundo a organização, a análise de Oxford demonstra que os modelos corporativos de smart cities promovidos pelo Norte Global falham quando se concentram exclusivamente em infraestrutura tecnológica de alto custo.

Na América Latina, sustenta a PxP, uma cidade inteligente só é sustentável se as soluções forem impulsionadas pela cidadania e usarem a inovação para reduzir a exclusão e a desigualdade, em vez de aprofundar a brecha digital.

Nesse sentido, a governança urbana deve se traduzir em maior transparência, prestação de contas e medidas concretas de adaptação climática — como sistemas de alerta precoce capazes de proteger os setores com menor capacidade de resposta.

Alguns casos de sucesso

Apesar dos desafios, como as restrições orçamentárias que enfrentam os municípios, o estudo de Oxford destaca alguns projetos como referências de sustentabilidade e inovação em cidades latino-americanas.

Da Colômbia, o levantamento destaca a frota de ônibus e táxis elétricos em Bogotá e o sistema de transporte massivo integrado de Medellín — com escadas rolantes e metrocable nas comunas —, como exemplos em que a tecnologia reduz a pegada de carbono e, ao mesmo tempo, resolve a acessibilidade de comunidades vulneráveis.

Santiago do Chile e Buenos Aires se destacam pelos avanços na gestão de transporte de massa otimizado (BRT) e sistemas eficientes de mobilidade compartilhada, além de planos de renovação urbana tecnológica.

A Cidade do México figura como o principal polo regional no desenvolvimento e integração de marcos normativos para edifícios inteligentes e verdes, com foco em eficiência energética. Já Montevidéu se sobressai pelas ferramentas de digitalização de serviços públicos para melhorar a interação com os cidadãos e a governança local.

Adaptação nas cidades

Com uma população urbana que deverá alcançar dois terços da humanidade nos próximos 25 anos, o relatório afirma que os governos locais da América Latina precisam equilibrar urgentemente suas agendas para implementar soluções de adaptação — como o fortalecimento das redes elétricas locais para suportar os picos de demanda durante as ondas de calor e evitar falhas que deixem a população mais vulnerável sem proteção.

Outra frente é a expansão da cobertura arbórea, com planos de reflorestamento urbano voltados especialmente para as zonas periféricas, onde o efeito de ilha de calor é mais intenso devido à alta densidade de concreto e à menor presença de áreas verdes.

O estudo também recomenda impulsionar normas de construção baseadas no design bioclimático, que reduzam a dependência de sistemas de resfriamento mecânico e permitam que residências e edifícios mantenham condições térmicas mais estáveis de forma natural.

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