Quando o Uruguai jogou em março em Wembley frente à Inglaterra, num particular que terminou com um empate carimbado com um penálti nos descontos de Fede Valverde, uma t-shirt dava nas vistas na bancada: “Widow of Bielsa” [“Viúva de Bielsa”]. Estranho? À primeira vista, sim. Muito. Mas percebendo um pouco o trajeto do treinador que ficou cedo conhecido no futebol como El Loco, faz sentido – por mais que o Leeds esteja bem e orgulhoso do trabalho feito por Daniel Farke, ninguém esqueceu a passagem do argentino pelo banco entre 2018 e 2022 depois da rábula dos dois dias na Lazio e do curto trajeto no Lille. Foi ali, a começar no Championship, que o técnico de 70 anos ganhou uma segunda vida. Agora, chega ao Mundial pela terceira seleção diferente tentando conduzir as “viúvas” da geração de ouro do Uruguai a uma segunda vida.
O final dessa era, no Mundial do Qatar, teve tanto de falhada como de custosa perante a eliminação logo na fase de grupos com Portugal, Coreia do Sul e Gana. A base que tinha Diego Godín, Coates, Edison Cavani ou Luis Suárez caiu por completo, José María Giménez, Fede Valverde, Ronald Araújo ou De Arrascaeta tentam agora segurar na liderança da equipa para encontrar respostas para as dúvidas que muitos levantam. Mais: não se pode falar propriamente uma nova vaga de talentos que tenha inundado o futebol uruguaio mas sim um conjunto de jogadores que estava na sombra dos “pesos pesados” (integrando ou não as convocatórias) e que querem agora dar o passo em frente para assumir esse legado. Tudo sob a batuta de El Loco Bielsa.
O treinador, sozinho, dava um livro. Vários livros. Da saída da Lazio dois dias depois de assinar por não ter ficado satisfeito com condições de trabalho que desconhecia ao questionário de 200 perguntas que entregou a todos os jogadores do Lille com perguntas como “O que acha da pobreza no mundo?”, passando pelo dia em que saiu com uma granada na mão para falar com adeptos que protestavam à porta da sua casa, por todas as centenas de horas que passava a ver jogos até descobrir o padrão das equipas que ia treinar e pelos três meses que passou fechado num convento sem TV, sem telefone e apenas com livros. Com uma postura mais discreta mas com a mesma sagacidade para saltar “fora da caixa”, Bielsa tem neste Mundial de 2026 a oportunidade de mostrar que sempre foi muito mais treinador do que as suas excentricidades apontavam.
Em paralelo, este será também o momento de redenção de várias figuras que foram perdendo brilho ao longo dos últimos meses. Como Fede Valverde, que se envolveu numa altercação com agressões à mistura com o companheiro Tchouaméni num treino (pagando a maior multa de sempre do Real). Como Darwin Núñez, que perdeu todo o espaço no Al Hilal desde a chegada de Karim Benzema. Como Manu Ugarte, que voltou a ter uma temporada como figura secundária do Manchester United. Como o capitão José María Giménez, que fez a época com menos utilização desde que chegou ao Atl. Madrid. A isso junta-se também o sangue novo de nomes bem conhecidos como Maxi Araújo, o exemplo paradigmático do “sangue quente” uruguaio que, canalizado no sentido certo, pode fazer a diferença para recolocar a equipa noutro patamar.
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