Abstenções, brancos e nulos são os verdadeiros vencedores da farsa eleitoral no Peru

Nenhum dos candidatos à presidência do velho Estado peruano alcançou sequer 20% dos votos válidos no primeiro turno da atual edição da farsa eleitoral no país. O pleito revelou-se, assim, uma “luta de pigmeus”: Roberto Sánchez, do Juntos pelo Peru, manteve uma vantagem mínima sobre Rafael López Aliaga, da Renovação Popular, para decidir quem enfrentará Keiko Fujimori (Força Popular) no segundo turno. Contudo, o dado mais contundente é o triunfo do boicote eleitoral: se os votos nulos e brancos formassem uma candidatura, teriam liderado a eleição com mais de três milhões de votos.

Dos 27,3 milhões de peruanos aptos a votar no primeiro turno, mais de seis milhões optaram pela ausência. O dado não pode ser reduzido à mera apatia: expressa o rechaço de amplas massas a um sistema que não oferece saídas à exploração. Estimativas do Instituto de Estudos Peruanos (IEP) indicam que 26% dos que se abstiveram preferiram trabalhar e pagar a multa a participar da encenação. Outros 5% sequer saíram de casa. O cenário demonstra a crise de confiança nas instituições do velho Estado.

Keiko Fujimori, filha do criminoso e genocida Alberto Fujimori, lidera a contagem oficial com pífios 17% dos votos. Sua liderança não expressa força política, mas a profunda decomposição do capitalismo burocrático no Peru, onde figuras carimbadas da reação sobrevivem em um sistema de partidos mercenários e entreguistas. Keiko, que já foi parlamentar e primeira-dama no regime de seu pai, carrega o estigma de um sobrenome manchado por crimes de corrupção e violações de direitos humanos.

O histórico da família Fujimori é marcado pelo sangue do povo peruano. Alberto Fujimori governou nos anos 1990 com mão de ferro, sendo posteriormente condenado por crimes contra a humanidade durante a repressão à guerra popular, levada a cabo pelo Exército Guerrilheiro Popular (EGP), dirigido pelo Partido Comunista do Peru (PCP). Keiko, por sua vez, também enfrentou o cárcere preventivo por lavagem de dinheiro no escândalo da Odebrecht. Mesmo com esse currículo criminoso, ela se apresenta como “opção segura” para “recuperar a ordem”, explorando a insegurança que o próprio sistema de exploração gera.

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O Comando Conjunto das Forças Armadas (CCFFAA) apressou-se em divulgar a cínica versão de que os ocupantes eram “narcotraficantes” que teriam atacado os soldados. Contudo, a farsa militar foi desmontada ponto a ponto.

Nesse cenário de crise, Roberto Sánchez surge como o nome que concentra as expectativas de setores da falsa esquerda, obtendo 32% das intenções de voto para o segundo turno, segundo o IEP. Sua base concentra-se sobretudo no Peru rural, onde alcança 44%, e nas regiões Centro, Sul e Oriente. Psicólogo e ex-ministro do governo deposto de Pedro Castillo, Sánchez propõe uma Assembleia Constituinte e a estatização de recursos estratégicos, tentando canalizar a revolta das massas para a via institucional.

Contudo, a economia peruana, descrita por analistas como “em modo zumbi”, continua a servir aos interesses do imperialismo, mantendo contas saneadas enquanto o povo amarga a pobreza. Os próprios analistas burgueses alertam que a “impermeabilidade” da economia à crise política é uma meia-verdade, pois o preço da instabilidade é pago diretamente pelas massas sob a forma de pobreza, informalidade e retirada de direitos.

A farsa eleitoral de 2026 contou com o recorde de 36 candidatos, em cédulas maiores que uma caixa de pizza. O relatório “Desencanto”, do IEP, revela que apenas 12% dos peruanos estão satisfeitos com o funcionamento da democracia demoliberal e suas instituições, o segundo menor índice da região. Além disso, apenas 18,6% acreditam que os tribunais garantem um julgamento justo. O novo presidente enfrentará um país onde 47% dos eleitores já acreditam que o mandato não será concluído.

Foto: Reprodução/Reuters/Angela Ponce

Guerra Popular segue como preocupação central da reação

O cenário de crise do velho Estado é completado pela desaprovação de 90% do Congresso Nacional. O Peru teve nove presidentes em uma década, um recorde de instabilidade que expõe as fraturas entre as facções da reação que não logram cumprir suas três tarefas reacionárias: recuperar a economia para impulsionar o decadente capitalismo burocrático; reestruturar o velho Estado, com maior centralização do poder no Executivo; e incrementar a repressão e endurecer a lei penal contra a luta popular para conjurar o perigo de revolução e esmagar a rebelião popular.

A ascensão de Keiko é a tentativa da reação de levar a cabo as três tarefas reacionárias e de reabilitar o fujimorismo, um regime de terror que ensanguentou o país na década de 1990 sob ordens diretas do imperialismo ianque. Alberto Fujimori foi responsável pela morte de milhares de camponeses e pela esterilização forçada de 350 mil mulheres pobres. Essas atrocidades visavam afogar em sangue a Revolução Peruana, dirigida pelo PCP. Já a maior aceitação da falsa esquerda de Roberto Sánchez nas regiões camponesas reflete o anseio de uma parcela ainda crente em mudanças institucionais diante de uma taxa de pobreza estimada em 33,4%.

Enquanto a farsa eleitoral tenta se sustentar, a Guerra Popular avança e segue sendo uma preocupação central para a reação peruana. No distrito de Huarmaca, em Piura, a reação entrou em pânico com o aparecimento de pichações nas escolas estaduais nº 20.119 e 14.591. As mensagens, atribuídas ao PCP e mencionando a Pátria Vermelha, causaram preocupação nas forças de repressão, e as aulas foram suspensas por precaução. O diretor da UGEL Huarmaca, Edi Mío Suyón, confirmou que as pichações ocorreram na madrugada. A Polícia Nacional do Peru foi acionada para reforçar a segurança e investigar o caso. A pichação advertia contra o papel dos delatores na comunidade, reafirmando que a Guerra Popular em curso nos Andes segue sendo um fantasma que assombra os reacionários.

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