Ficaram soterrados na mina onde procuravam o sustento que lhes permitisse continuar a sonhar e que se transformou em pesadelo. Hoje descem novamente à terra.
Nas aldeias de onde eram originários grande parte dos garimpeiros preparam-se os funerais em ambiente de consternação, entre lágrimas e resignação, gritos, choros e muita dor.
Estamos no município de Nambuangongo, nome que ecoa memórias de morte e sofrimento — palco da insurreição armada que marcou o início da guerra colonial e que é hoje, de novo, cenário de morte e de luta, desta vez contra a pobreza e a miséria.
“O emprego que temos é mesmo esse, melhorar as condições de vida”, desabafa Sebastião Moisés Tandala, do bairro Kifula, justificando o que leva tantos a enfrentar os riscos e, muitas vezes, a encontrar a morte.
Doze das 28 vítimas eram oriundas deste bairro e familiares de Paulo Miranda de Sousa, que está em “choque”, salientando que em Nambuangongo nunca se viu nada assim.
“A zona de Nambuangongo é uma zona historicamente muito forte, sobretudo nas histórias das guerras”, mas este caso é inédito, sublinha.
“Mesmo naquela altura, as emboscadas e os ataques nunca provocaram uma baixa de mais de dez cidadãos nacionais. Nunca tivemos este registo. Isto choca, de facto, a comunidade”, relata à Lusa.
“Emprego garantido não temos, muitos estudámos, finalizámos [o ensino], mas não temos emprego. Aqui é só catana, pegamos catana para lavrar para assegurar a sobrevivência, e quando apareceu esse recurso mineral quisemos fazer a exploração”, prossegue Sebastião Tandala, lamentando a “tragédia muito grande”, que custou a vida dos “irmãos”.
“É uma dor muito grande”, desabafa, contando que toda a casa perdeu alguém.
No Kifula estão já abertas as 12 sepulturas para os jovens que, ignorando os perigos, caminharam horas até à aldeia do Balacende, onde desceram até à mina artesanal do Missaxi, a cerca de 30 quilómetros de distância.
Fragilizada pela escavação e atividade intensa do garimpo, a mina acabaria por colapsar, levando consigo os jovens mineiros.
A febre começou quando um jovem local obteve 20 a 25 gramas de ouro que lhe renderam 2,6 milhões de kwanzas — cerca de 2.500 euros —, uma fortuna nestas paragens.
“Sendo uma coisa inédita, um jovem daqui da terra ter, em uma só assentada, 2 milhões, aquilo levantou comentário e incitou os demais jovens a atingir a zona da mina”, conta Paulo Miranda de Sousa. A partir daí, cada vez mais jovens acorreram ao local.
Uma atração que é compreensível, até certo ponto.
“Para produzirmos a cultura da banana leva meses, leva anos. A produção da mandioca, para transformar em fuba, leva anos. Mas a exploração ilegal de ouro é uma questão de minutos, de horas. Ele vai com nada e sai com qualquer coisa”, contextualiza.
Mas esta febre tem um lado sombrio e o chefe de família enlutado assinala que, mesmo durante o resgate, havia quem ajudasse a retirar os corpos e quem aproveitasse para levar cascalho.
“Ali mesmo naquele momento, naquele calor a retirar as pessoas, tinha pessoas com sentimento de ajudar as famílias, mas também tinha pessoas aproveitando levar o próprio cascalho, mesmo com os corpos presentes”, critica.
Por detrás desta “febre” estarão cidadãos estrangeiros de outros países africanos que “recebem o ouro a um preço muito baixo, explorando a própria juventude de cá e levando a riqueza para outras zonas”, diz.
E o que fica? “Apenas uma ilusão”, aponta, pedindo ao Governo que organize cooperativas de exploração de minério “para que esses jovens deixem de atingir essas minas de forma ilegal, de forma arriscada”.
A administradora da Comuna de Canacassala, Isabel Marcelino, lamenta que, apesar da sensibilização do governo provincial do Bengo, muitos jovens não queiram ouvir.
“Há quem abandone as escolas e passe a dedicar-se ao garimpo para a sua sobrevivência. E os resultados são estes”, lamenta.
A administradora adiantou à Lusa que é intenção das autoridades promover cooperativas artesanais para organizar os garimpeiros, mantendo o controlo e a exploração das minas sob tutela do governo, criando riqueza e emprego para as comunidades e minimizando os riscos.
Além das 28 pessoas identificadas, Isabel Marcelino acredita que não haverá mais vítimas soterradas, já que as famílias têm acompanhado de perto o processo de recuperação dos corpos.
Sobre a dificuldade em travar o garimpo ilegal, Isabel Marcelino é direta: “É como ter um gatuno em casa, muitas vezes vão para lá na calada da noite”.
O soba de Canacassala, Henriques Manuel, perdeu dois genros, um irmão e um sobrinho na malfadada mina e garante que ninguém tinha conhecimento destas práticas — as pessoas foram seduzidas pelos ganhos rápidos, porque dependem quase exclusivamente do campo.
“Não é habitual, até alguns que morreram não era habitual para eles, era a primeira vez, foram porque lhes disseram que estava a sair bem [o ouro] e foram arriscar as suas vidas”, conta à Lusa.
“Antes não fazíamos [garimpo], sempre nos dedicámos à vida de camponês”, sublinha.
Nesta província produzem-se, além dos recursos minerais, produtos agrícolas em quantidade e qualidade.
A disponibilidade de água, as terras férteis e a proximidade a Luanda — onde se encontram os principais mercados de Angola — fazem do Bengo uma das províncias angolanas com maior vocação agrícola. Mas os jovens preferem o brilho do ouro à vida dura do cultivo da banana e da mandioca.
Joy Carlito, natural de Canacassala, perdeu dois irmãos na madrugada de sábado e recorda que o passa-palavra era de que aquela mina “estava a pipocar” — e foi esse rumor que atraiu os jovens locais.
“Só chegaram e entraram”, prontos a trabalhar. Alguns, quando chegaram, às seis da manhã, “encontraram aquilo já desabado com os nossos irmãos dentro do túnel” — foram eles os primeiros socorristas e conseguiram salvar quatro garimpeiros, entretanto já fora de perigo.
Joy concorda que a atração tem a ver com a falta de emprego e de perspetivas: os jovens que não se resignam a ser camponeses armam-se de picaretas e enxadas e preferem arriscar a sorte.
Alguns encontram ouro e têm compradores mesmo na mina, conseguindo comprar motorizadas, construir as suas casas “e aguentar a sua família”. Outros perdem a vida.
Aos bairros vão chegando carrinhas carregadas de familiares e amigos que se querem despedir dos seus entes queridos. Juntam-se cadeiras e mais cadeiras, servem-se panelões de comida a quem chega para o óbito, seguindo a tradição angolana.
O governo provincial do Bengo tem dado apoio alimentar e forneceu as urnas que deverão chegar hoje para os funerais coletivos, num cortejo fúnebre que parte de Caxito, a capital da província.
Junto a uma casa, sob um telheiro de folhas de palmeira que protege do sol quente, dezenas de mulheres espalhadas pelo chão guardam um luto silencioso — olhares dignos e tristes, pesados de muitos choros e de muitos óbitos.
As “mamãs” da igreja, com os seus panos coloridos, ecoam cânticos que homenageiam os mortos e reconfortam os corações dos que ficaram.
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