A tendência é uma certeza. Não há volta a dar. E Portugal quer ter um papel relevante a desempenhar, criando rotas verdes e apoiando-se no histórico que tem.
A descarbonização do transporte marítimo deixou de ser uma ambição distante. É uma inevitabilidade regulatória, económica e tecnológica, ainda que estejamos longe de um consenso sobre o caminho a seguir.
Esta ideia ficou clara nas intervenções de decisores políticos, representantes da indústria marítima, energia e centros de investigação que participaram no Portugal-China Green Maritime Fuels & Decarbonisation 2026, realizado em Oeiras pelo Fórum Oceano.
Outra ideia também ficou clara: Portugal quer ter um papel nesta mudança.
Na abertura do encontro, o presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, enquadrou o momento como uma mudança estrutural profunda. “Estamos perante uma mudança de paradigma”, disse. “Energia, portos, indústria, logística e financiamento estão hoje profundamente interligados”, acrescentou.
Alertou, no entanto, para o risco de incoerências no processo de transição. “Esperemos não chegar ao paradoxo de termos navios movidos a combustíveis verdes a atravessar os oceanos para transportar combustíveis fósseis que continuamos a querer substituir”, avisou.
Para construir este futuro, defendeu o reforço da cooperação internacional, em particular com a China, sublinhando a importância de Portugal – e de Oeiras, claro – neste eixo estratégico.
Marisa Lameiras da Silva, diretora-geral da Direção-Geral de Política do Mar (DGPM), sublinhou que a transição energética no mar passou a ser uma prioridade estratégica ambiental, económica, tecnológica e geopolítica, enquadrando-a na Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030 e destacando o papel de Portugal enquanto plataforma atlântica de inovação e sustentabilidade.
Portugal quer posicionar-se na linha da frente da descarbonização do transporte marítimo através da criação de corredores marítimos verdes, uma abordagem que procura alinhar toda a cadeia de valor — dos portos aos armadores, passando por fornecedores de combustível, investidores e reguladores — em torno de rotas concretas de transição energética.
A proposta foi destacada por Carlos Costa Pina, presidente do Fórum Oceano, que realçou o potencial estratégico de um corredor com origem ou destino em Sines, capaz de integrar soluções energéticas de transição e evoluir progressivamente para combustíveis limpos como o metanol e a amónia verde.
“Os corredores verdes permitem quebrar o bloqueio clássico da transição: os armadores hesitam sem combustível disponível, os produtores sem procura garantida e os portos sem tráfego comprometido”, afirmou, defendendo que esta abordagem “transforma a intenção em execução”.
A iniciativa prevê a criação de cadeias de abastecimento certificadas, contratos de longo prazo e mecanismos de monitorização e reporte padronizados, elementos considerados essenciais para garantir confiança e viabilidade económica. Segundo Costa Pina, trata-se de uma visão “ambiciosa, mas realista”, desde que exista articulação entre tecnologia, infraestrutura, regulação e compromisso institucional.
Qian Zhimin, chairman do International Forum for Clean Energy, afirmou que a descarbonização do transporte marítimo entrou na fase da “execução”, guiada por regras, financiamento e escala industrial. Referiu o avanço da China na construção de uma cadeia completa de combustíveis como hidrogénio, amoníaco e metanol verdes, e apontou Portugal como possível plataforma europeia estratégica para produção e exportação de energia verde devido às suas renováveis e posição atlântica.
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