“1001 Noites – Irmã Santomense”: Pode um tirano mudar?

Esta nova peça, com dramaturgia e encenação de Miguel Jesus e cenografia de João Brites, faz uma reflexão sobre violência, justiça e transformação humana, num cruzamento entre contos, improvisação e influências culturais de São Tomé e Príncipe.

O espetáculo decorre ao ar livre, junto ao Cine-Teatro São João, entre 8 e 31 de maio. Nos dias 5 e 6 de junho segue para a Quinta do Anjo – Sociedade de Instrução Musical e 12 e 13 de junho no Pinhal Novo – Edifício Santa Rosa. 

No elenco estão Rita Brito (Xerazade), Fabian Bravo (Xariar), Adozia Cristo  (Dinarzade) – atriz conhecida em São Tomé e Príncipe pela personagem Saco de Boxe –, Nicolas Brites (Bacbaca), Diogo Rocha (Silencioso), com a percussão de Mick Trovoada (Zantune) e as batidas de DJ  Marfox. 

O espetáculo volta às personagens Xariar e Xerazade passadas tantas noites e contadas tantas histórias, para refletir sobre aquilo em que se transformaram. No centro da narrativa permanece a questão: pode um tirano mudar? E, se mudar, deve ser perdoado?

“É quase uma metáfora. Por muito facínora que o homem fosse, não acreditamos que, no contacto com ela, não fosse ficando diferente, e que ela também não fosse ficando diferente. E, portanto, até onde é que ele conseguiria mudar? Conseguiria transformar-se o suficiente para que a sua natureza tirânica fosse alterada? E se se alterasse, devíamos perdoá-lo? Devíamos vingar-nos? Estamos a aplicar uma justiça ou estamos só a aplicar uma vingança?”, questiona Miguel Jesus enquanto explica que o espetáculo nasce destas questões sobre as ambiguidades morais.   

A génese do projeto nasceu da tradução de Hugo Maia, baseada na versão mais antiga conhecida das Mil e Uma Noites, mas diferente da popularizada pelo imaginário ocidental. Cada espetáculo foi concebido por um encenador diferente e associado a uma “irmã” proveniente de um contexto cultural distinto, porque as Mil e Uma Noites não pertencem a nenhuma cultura específica; o livro é património da humanidade. 

“Essa versão é muito mais oral. O que para nós, teatreiros, dá muito jeito. É muito mais fácil de se ouvir; é muito mais fácil de comunicar. Pensar que estas histórias têm 700 ou 800 anos e continuam a fazer-nos rir das mesmas coisas”, conta Miguel Jesus. 

A tetralogia começou com Irmã Persa, com uma atriz de origem iraniana, encenada por Susana Branco, que conta a história da origem do Xariar que, ao ser traído pela mulher, promete que, a partir daí, qualquer mulher que tenha, irá matá-la no dia seguinte. 

Seguiu-se Irmã Palestina, criada por João Brites e Olga Roriz, com a Maria Dally, bailarina palestiniana, depois Irmã Mapuche, dirigida por João Neca, com Maricruz Díaz, atriz do Uruguai que tem também origens do povo indígena Mapuche. 

Agora chega a Irmã Santomense que nasce do encontro d´O Bando com a atriz Adozia Cristo de São Tomé. O espetáculo valoriza o Tchiloli, teatro popular santomense, a língua Forro e tem influências culturais de São Tomé, trazidas também por Isabel Mota e pelo percussionista Mico Trovoada. 

Adozia esteve uma semana no espaço d´O Bando, em Palmela, para que todos se conhecessem, num processo artístico marcado por improvisações e uma fusão entre realidade e ficção.

“Nós também gostamos dessas experiências para tentar perceber como é que podemos tornar matéria teatral aquilo que, à partida, é um bocadinho inexplicável, que está a pulsar, que não conseguimos ainda dizer que queremos ou não queremos; não é uma decisão. É um impulso que depois vai gerando matéria. Portanto, foi surgindo desta maneira. Depois entrámos numa fase um pouco mais aberta de improvisações, com os atores a criar. Há sempre umas discussões, há sempre umas conversas para tentar ir indiciando caminhos”, afirma Miguel Jesus. 

Créditos: Rita Santana

A dramaturgia construiu-se a partir de contos retirados das Mil e Uma Noites — como um Demónio que quer conhecer a voz dos Anjos, um Barbeiro que fala mais do que corta cabelo, um Jovem apaixonado que diz ter aversão pelas mulheres, um Pobre cheio de fome que come comida invisível, um Alfaiate que trabalha por amor até à exaustão e à humilhação — misturados com elementos do imaginário santomense e das próprias improvisações dos atores.

No centro da narrativa permanece a relação entre Xariar e Xerazade. O espetáculo afasta-se da representação simplificada de um Xariar puramente tirano e de uma Xerazade heroica e inteiramente virtuosa. 

“Todos podemos ter um bocadinho de bom e um bocadinho de mau”, resume Miguel Jesus. 

A peça tenta ir mais longe ao mergulhar nas ambiguidades humanas: até onde vai a responsabilidade de quem oprime? E até onde pode ir a resposta de quem é oprimido? As ideias de justiça e vingança confundem-se enquanto se questiona a legitimidade da violência, da ação direta e da própria ideia de redenção.

Inspirado pelo Tchiloli, o espetáculo abandona o palco convencional para ocupar pátios, largos e associações culturais das freguesias de Palmela, onde uma caravana de saltimbancos entretém o seu pequeno tirano alucinado.

O Tchiloli influenciou O Bando “a vir para esta lógica de saltimbancos de teatro sem rédeas, desbregado, completamente desprotegido também, no sentido de que os atores é que têm que resolver tudo”.

São os atores que asseguram a luz, os adereços e até o som, numa lógica próxima do teatro ambulante e carnavalesco.

“É uma trupe alucinada que ocupa um espaço, está em trânsito, portanto, a seguir, a ideia seria que amanhã estariam noutro sítio. Mas esta é a última noite. Portanto, nesta noite, eles têm que decidir o que é que fazem ao Xariar”.

A encenação procura também recriar o espírito dos contadores de histórias árabes e dos teatros de feira: uma trupe em trânsito, que aparenta ser descontrolada. A improvisação e o trabalho diário em conjunto criam uma cumplicidade entre os atores que se “reflete em cena neste lado mais circense, se quisermos carnavalesco, que alguns espetáculos precisam”, explica Miguel Jesus. 

Mais do que transmitir uma mensagem, Irmã Santomense tenta desconstruir a ideia de linearidade. Num tempo marcado por discursos polarizados e narrativas simplificadas, o espetáculo reivindica a complexidade das relações humanas.

“Cada vez mais, a informação encaminha-nos para uma certa linearidade naquilo que é o entendimento do mundo e eu acho que a parte interessante é que tudo é muito mais problemático, cinzento, difícil de deslindar. Podemos amar alguém e querer matá-lo ao mesmo tempo. Portanto, se o espetáculo nos ajudar a tornar-nos pessoas com mais dúvidas, com mais capacidade de interrogarmos, quanto maior for o espaço que abrimos entre a nossa vontade de reagir e a nossa reação, maior é a probabilidade de a decidirmos de uma forma mais consciente”, conclui Miguel Jesus.

Na última das “mil e uma noites”, o público é confrontado com o destino do Xariar, mas com uma pergunta maior: o que fazemos nós com os nossos próprios Xariares e com a parte deles que também existe dentro de nós?


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